Progressista na política, papa deixa claro que é conservador em relação a direitos gays

Cláudia Trevisan

28 Setembro 2015 | 10h59

O papa nunca havia visitado os Estados Unidos em seus 78 anos de vida e muitas de suas críticas contra o capitalismo e o consumismo parecem ter o país como alvo principal. Apesar de seu esforço, seu inglês nem sempre é compreensível. Ainda assim, o primeiro representante de um país latino-americano no comando da Igreja Católica foi recebido de maneira retumbantemente positiva em sua passagem de seis dias por Washington, Nova York e Filadélfia.

Centenas de milhares de pessoas saíram às ruas para vê-lo e milhões acompanharam ao vivo pela TV todos os seus passos e eventos, entre os quais sete cerimônias religiosas, transmitidas na íntegra pela CNN e outras grandes redes americanas. Jornalistas não escondiam o encanto com seu despojamento, humildade, linguagem compreensível e a enorme capacidade de se conectar com as pessoas comuns.

Seus discursos e homilias foram lapidares e com mensagens específicas para públicos distintos. Na Casa Branca, no Congresso americano e na Organização das Nações Unidas (ONU), o papa abordou grandes temas políticos e sociais, como a degradação ambiental, o acolhimento de imigrantes, a abolição da pena de morte, a paz e a eliminação de armas nuclear.

Quando visitou o Marco Zero do atentado do 11 de Setembro, em Nova York, ele falou do respeito às diferenças religiosas e culturais. “Juntos hoje somos convidados a dizer ‘não’ a toda tentativa uniformizadora e ‘sim’ a uma diferença aceita e reconciliada”, disse, ao lado de líderes de outras fés.

No Madison Square Garden, ele mencionou a riqueza e as dificuldades da vida nas grades cidades e fez um apelo para que seus moradores enxerguem os deixados nas margens ou na escuridão –os estrangeiros, as crianças sem escolas, os que não têm assistência médica, os sem-teto e os velhos solitários.

Em um país cada vez mais polarizado politicamente, republicanos e democratas preferiram destacar itens distintos das mensagens de Francisco. Os progressivos se concentraram nos grandes temas políticos, nos quais há coincidência entre as posições da legenda e as do papa, enquanto os conservadores festejaram sua condenação do aborto, a exaltação da família tradicional e a defesa da liberdade religiosa.

No avião que o levou de volta a Roma, o papa reforçou a mensagem celebrada pelos republicanos e defendeu a possibilidade de funcionários públicos recusarem emitir certidões de casamento a casais gays, alegando convicções pessoais. O tema é apresentado pelos conservadores como uma questão de liberdade religiosa, enquanto os democratas ressaltam o caráter laico do Estado e sua separação da igreja.

Com suas declarações, Francisco se colocou ao lado da cartorária do Kentucky que se recusou a realizar casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Kim Davis foi presa por desobedecer determinação judicial e acabou presa e transformada em ícone dos que se opõem ao movimento em defesa dos direitos gays.

Apesar de suas posições progressistas em relação a grandes temas políticos, o papa deixou claro em sua visita aos EUA que é um conservador em questões relacionadas à família e à influência da religião na esfera pública.