Putin ataca a ideia do “excepcionalismo” americano

Cláudia Trevisan

13 Setembro 2013 | 10h43

Além de sequestrar a iniciativa de Washington na busca de uma solução diplomática para a Síria, o russo Vladimir Putin provocou uma onda de fúria nos Estados Unidos ao atacar a ideia de que os americanos são “excepcionais” em razão de seu sistema político e de seus valores, usada por Barack Obama na terça-feira para defender um ataque militar contra o regime de Bashar Assad.

“Quando, com esforços e riscos modestos, nós podemos impedir que crianças sejam intoxicadas com gás até a morte e, assim, aumentar a segurança de nossas próprias crianças no longo prazo, eu acredito que nós devemos agir. Isso é o que faz a América diferente. Isso é o que nos faz excepcionais”, declarou Obama em pronunciamento à nação.

Ao que Putin respondeu ontem em artigo publicado no New York Times: “É extremamente perigoso encorajar as pessoas a verem a si mesmas como excepcionais”, uma declaração que provocou reação de republicanos, democratas, comentaristas políticos, âncoras de TV e leitores do jornal.

Dirigindo-se ao “povo americano”, Putin se apresentou como defensor da diplomacia e do sistema multilateral construído ao redor da Organização das Nações Unidas (ONU), ao mesmo tempo em que retratou a política externa de Washington como um exercício de intimidação pelo uso da força.

O senador democrata Robert Menendez disse que teve vontade de vomitar depois de ler o texto, e seu colega republicano John Boehner afirmou que se sentiu “insultado” pelas palavras de Putin. “Nós temos que entender que o presidente Putin é a última pessoa que pode ensinar os Estados Unidos sobre nossos valores humanos, nossos direitos humanos e o que nós defendemos”, ponderou Leon Panetta, que foi diretor da CIA na primeira gestão de Obama.

Na Casa Branca, a questão do “excepcionalismo” americano foi recorrente no briefing diário à imprensa do porta-voz Jay Carney. “Há uma grande ironia na publicação de um artigo como esse, porque ele reflete uma tradição realmente excepcional desse país: a liberdade de expressão. E essa não é uma tradição compartilhada pela Rússia, onde a liberdade de expressão tem diminuído nos últimos anos”, declarou Carney.

No sábado, o presidente já havia usado o suposto caráter especial de seu país para tentar legitimar a operação militar na Síria: “Nós somos os Estados Unidos da América. Nós não podemos fechar os olhos para as imagens como as que saíram da Síria”, observou, em referência ao ataque com armas químicas no dia 21, pelo qual Washington responsabiliza o regime de Bashar Assad.

Em declarações ao blog do NYT Public Editor’s Journal, o editor de opinião do jornal, Andrew Rosenthal, declarou que poucos artigos que publicou provocaram reação tão intensa quanto o de Putin _até às 18h de ontem, havia 3.375 comentários ao texto. Segundo Rosenthal, o artigo foi oferecido ao Times anteontem por uma empresa de relações públicas americana que representa Putin.