Quando Barack Obama se parece com George W. Bush

Cláudia Trevisan

29 de agosto de 2013 | 01h07

Barack Obama apresentou ontem a sua versão para a teoria dos “ataques preventivos” usada por George W. Bush em 2003 para justificar a invasão do Iraque. O presidente democrata que há uma década se opôs à ofensiva contra Saddam Hussein sustenta agora que a eventual operação contra o regime de Bashar al-Assad na Síria tem o objetivo de descartar o risco de armas químicas virem a ser utilizadas contra norte-americanos.

Não por acaso, um comentarista da CNN observou que a nova retórica de Obama se parecia mais com a do vice-presidente de Bush, Dick Cheney, do que com a do próprio senador Obama quando ele se opôs ao início da Guerra do Iraque.

Em entrevista à rede de TV pública PBS, o presidente reforçou a principal mensagem dada por integrantes de seu governo nos últimos dois dias: o regime de Assad deve ser punido pela suposta utilização de armas químicas contra sua própria população.

Apesar de Obama sustentar que ainda não tomou a decisão final, os Estados Unidos e seus aliados chegaram a um ponto do qual não poderão recuar sem danificar sua credibilidade internacional. O que está em discussão não é mais se haverá um ataque à Síria, mas sim qual será o seu formato.

Obama tentou ontem dar uma justificativa defensiva à provável ofensiva contra a Síria, lançando mão de uma lógica semelhante à adotada por Bush há uma década: “Há um prospecto, uma possibilidade de que armas químicas sejam usadas contra nós. Nós queremos ter certeza de que isso não acontecerá”, declarou, depois de ressaltar que a Síria tem o maior estoque de armas químicas do mundo.

Segundo o presidente, o controle do regime de Assad sobre esse arsenal pode “erodir” ao longo do tempo. Entre outras possibilidades, os armamentos podem cair nas mãos de grupos terroristas que no passado atacaram os Estados Unidos _e que voltarão à carga se tiverem a oportunidade e os meios para isso.

Obama reconheceu que a eventual ação americana não resolverá o problema interno da Síria nem acabará “com a morte de inocentes” dentro do país. O objetivo de Washington é mandar um “sinal forte o bastante” para desencorajar Assad a usar armas químicas no futuro, observou.

O que não está claro na equação americana é qual será a resposta do regime sírio, o impacto que o eventual ataque terá sobre a população civil e a reação de aliados do governo de Damasco.

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