Reservas se transformaram em peso para a China, diz economista ligado ao governo

Cláudia Trevisan

21 de agosto de 2011 | 06h33

Os US$ 3,2 trilhões de reservas internacionais acumuladas pela China se transformaram em um peso para o país, em razão de seu tamanho gigantesco e das poucas opções de investimentos disponíveis, afirma Li Xiangyang, diretor do Instituto de Estudos da Ásia-Pacífico da Academia Chinesa de Ciências Sociais, centro de pesquisas ligado ao governo. “O volume é tão grande que não importa onde e no que a China planeje investir, o risco será sempre muito grande”, disse Li em entrevista. O dilema chinês de como administrar essa montanha de dinheiro se tornou mais intenso depois que a agência de notícias Standard & Poors rebaixou a nota de crédito dos Estados Unidos, no último dia 5. “Nós sabemos dos riscos, mas não temos escolha, observou Li, em relação ao grande volume de títulos do Tesouro norte-americano detidos pela China _US$ 1,16 trilhão, o que coloca Pequim na condição de maior credor de Washington.

A saída para reduzir a dependência chinesa dos investimentos em dólares é mudar o modelo de desenvolvimento do país, com redução das exportações, aumento das importações e impulso à demanda doméstica. Outra medida defendida por Li é o abandono do uso do dólar como moeda de reserva global e restrições à capacidade do Federal Reserve de emitir moeda. Li acredita que a solução do dilema das reservas não está na apreciação rápida do yuan, que traria riscos consideráveis para o setor exportador. “Na história da China, nós sempre atingimos nossos objetivos gradualmente e não de maneira apressada.”

A seguir, trechos da entrevista:

As reservas internacionais se transformaram em um peso para a China?
Em certo sentido, elas são um peso. Em primeiro lugar, a segurança das reservas internacionais piorou. O volume é tão grande que não importa onde e no que a China planeje investir, o risco será sempre muito grande. Se as reservas são usadas para comprar moedas como dólar ou euro, a cotação dessas moedas sobe. Se forem usadas na compra de produtos como petróleo, o preço do petróleo também tem alta. Se a China comprar ou vender alguma coisa no mercado global, o preço vai subir ou cair.
Em segundo lugar, para evitar riscos financeiros, a China deveria diversificar seus investimentos em diferentes moedas, mas a grande quantidade de reservas faz com que o país tenha poucas opções e enfrente mais riscos. A mudança entre diferentes moedas também é muito difícil, porque grandes movimentos podem levar a flutuações no mercado internacional de moedas. Se a China vende dólares e compra euros, o dólar vai se desvalorizar e o euro, se apreciar.
Em terceiro lugar, o grande volume de reservas pressiona a inflação. De julho de 2010 até agora, as reservas aumentaram em US$ 800 bilhões e isso piorou a inflação doméstica. No modelo atual, o banco central tem que emitir renminbi [outro nome do yuan] para comprar moeda estrangeira das empresas [o que eleva a quantidade de dinheiro em circulação na economia].

Que lições a China tirou da crise em torno do aumento do teto da dívida dos Estados Unidos?
No curto prazo, ainda que a China tenha percebido o risco de tantos papeis da dívida norte-americana, é impossível mudar o grande percentual de ativos em dólares no total das reservas. Ficou claro depois dessa crise que os Estados Unidos podem sacrificar o interesse de seus credores em razão de interesses políticos. Portanto, a China enfrenta riscos ainda maiores. A elevação do limite de endividamento dos Estados Unidos indica que o dólar vai se depreciar e que a segurança dos ativos em dólar detidos pela China vai diminuir. A China está em um dilema. Nós sabemos dos riscos, mas não temos escolha.
O problema poderia ser resolvido por dois caminhos. Primeiro, nós precisamos reformar o sistema monetário internacional e reduzir a dependência do dólar. Isso significa que temos que mudar o cenário no qual o dólar funciona como uma moeda internacional, além de restringir a capacidade do Federal Reserve de emitir essa moeda internacional.
Segundo, nós precisamos diminuir o superávit comercial da China. Só dessa maneira nós podemos diminuir a dependência do dólar.

Mas é possível mudar o sistema monetário internacional em pouco tempo? Qual moeda deveria substituir o dólar?
É impossível resolver esse problema em curto prazo. É uma tarefa de longo prazo. A discussão em anos recentes é sobre o fortalecimento dos Direitos Especiais de Saque do Fundo Monetário Internacional e gradual redução da dependência do dólar. Essa é a razão pela qual eu acredita que o caminho é a redução do superávit primário e mudança do modelo de crescimento.

A China conseguirá deixar de acumular reservas sem mudar o sistema de câmbio que força o banco central a comprar dólares para evitar a apreciação do yuan?
Nós queremos reformar o regime de câmbio, mas não agora. O que podemos fazer é diminuir o superávit primário e controlar o fluxo de capital especulativo. Na história da China, nós sempre atingimos nossos objetivos gradualmente e não de maneira apressada.

O sr. disse que também é necessária a mudança no modelo de crescimento. O que isso significa?
Nos últimos seis meses, o crescimento das importações foi maior que o das exportações. No longo prazo, nós precisamos de tempo para mudar o modelo de crescimento baseado nas exportações. O 12˚ Plano Quinquenal [2011-2015] prevê o aumento do consumo doméstico. Todas as províncias elevaram o valor do salário mínimo e os investimentos na seguridade social aumentaram. Tudo isso cria um ambiente favorável ao aumento do consumo doméstico.
Se a China continuar a acumular reservas, existem opções viáveis de investimento além dos títulos do Tesouro norte-americano?
Esse é o dilema que enfrentamos agora. Nós queremos diversificar nossos investimentos, mas as opções são limitadas. Não temos escolha. No fim de 2010, por exemplo, o Japão ficou preocupado porque a China estava comprando seus títulos e provocando sua apreciação.

Por que é tão difícil para a China mudar seu regime cambial?
Por causa do modelo econômico tradicional. Nos últimos 30 anos, a China realizou sua abertura por meio das exportações e as exportações se tornaram um dos principais fatores de desenvolvimento do país. Se nós mudamos de maneira radical o regime de câmbio, a economia vai sofrer um baque severo, especialmente no momento em que as perspectivas para o futuro do mercado financeiro e a economia globais são bastante negativas.
A China conseguirá manter seu alto ritmo de crescimento em meio à desaceleração da economia global?
Esse é o maior desafio que o governo chinês enfrenta. A inflação em alta requer medidas de aperto monetário, mas as previsões para a economia global são pessimistas. Os responsáveis pela política econômica estão tentando encontrar um equilíbrio entre o crescimento e o combate à inflação.

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