Sanders é adversário ideal para Trump

Pesquisa Gallup mostra que só 47% dos eleitores americanos estariam dispostos a votar em um socialista, o menor percentual entre 12 categorias; 76% disseram que poderiam escolher um candidato gay

Cláudia Trevisan

10 de fevereiro de 2020 | 23h27

O Partido Democrata ainda está longe de decidir quem o representará nas eleições americanas de novembro, mas o presidente Donald Trump parece já ter escolhido seu adversário ideal: Bernie Sanders, o senador de 78 anos que ocupa a faixa mais à esquerda da oposição ao atual ocupante da Casa Branca.

A convicção de que ele é o mais derrotável entre os pré-candidatos democratas levou o Partido Republicano a tentar interferir nas primárias da legenda adversária para impulsionar suas chances. Dirigentes da organização na Carolina do Sul estão pedindo que seus filiados votem em Sanders nas primárias do Estado, que são abertas a todos os eleitores e ocorrerão no fim deste mês.

A campanha à reeleição de Trump divulgou nas últimas semanas uma série de ataques contra Sanders. Duas fontes disseram ao site Politico, um dos mais respeitados dos EUA, que o objetivo era aumentar a visibilidade do senador junto aos democratas e aumentar suas chances junto ao eleitorado que se opõe ao presidente.

A estratégia de Trump para enfrentar Sanders está desenhada desde o início de 2019, quando ele usou seu discurso sobre o Estado da União para declarar que a “América nunca será um país socialista”. Desde então, houve uma proliferação de camisetas estampadas com a frase de Trump e vendidas por sites conservadores como Patriot Depot e Warrior Code.

Depois de cair nas pesquisas de opinião, Sanders se recuperou e chegou em uma trajetória ascendente na largada das primárias democratas, em Iowa, no início do mês. Mas o impulso não foi suficiente para garantir sua vitória. O senador chegou na reta final virtualmente empatado com Pete Buttigieg, que tem 38 anos e é o primeiro candidato à presidência dos EUA abertamente gay.

Com o enfraquecimento do ex-vice-presidente Joe Biden, o mais jovem entre os pré-candidatos democratas parece estar conquistando a preferência dos eleitores que rejeitam o radicalismo de Sanders em favor de propostas mais moderadas.

À diferença de Trump, que escapou do serviço militar, Buttigieg não só se alistou como lutou na guerra no Afeganistão. Sua retórica é permeada do patriotismo e do respeito aos veteranos que agrada ao eleitorado americano mais conservador. Além disso, a religião ocupa um papel central em sua identidade. “Deus não pertence a um partido político nos Estados Unidos da América”, declarou em um evento de campanha no mês passado, em uma referência indireta ao Partido Republicano, quem tem uma ampla base de evangélicos brancos.

Buttigieg é a favor de aumentar o Orçamento de Defesa, outra posição que agrada os moderados, enquanto Sanders defende sua diminuição. O senador propõe um sistema único de saúde pública, que eliminaria os seguros-saúde privados. Buttigieg é contra e defende um sistema público por opção -os que preferirem, poderão manter seus seguros atuais.

Está claro que Trump e grande parte da elite republicana veem Sanders como o adversário que pode ser derrotado mais facilmente. Antes de Iowa, o presidente afirmou que a direção do Partido Democrata estava manipulando as primárias para favorecer Biden, em detrimento de Sanders. “Muito injusto”, escreveu no Twitter.

A percepção dos republicanos está alinhada com a opinião pública americana. Pesquisa Gallup divulgada no ano passado mostrou que apenas 47% dos eleitores se declararam dispostos a votar em um socialista, o menor percentual em uma lista de 12 opções. O socialista ficou atrás de ateus (60%) e muçulmanos (66%). Sanders se identifica como um “socialista democrata”, mas Trump e seus aliados preferem ignorar o “democrata” e se concentrar no “socialista”.

Candidatos gays ou lésbicas receberiam o apoio de 76%, pouco abaixo dos 80% obtidos por cristãos evangélicos. O percentual é o triplo dos 26% que declararam que votariam em um homossexual em 1978, na primeira vez em que a pergunta foi apresentada pelo Gallup. Isso não significa que Buttigieg não enfrentará resistências por sua opção sexual -democratas negros religiosos do Sul estão entre os se opõem à sua nomeação. E ele tem outros problemas -da sua falta de experiência administrativa à sua imagem elitista.

Os republicanos da Carolina do Sul estão convencidos que impulsionar a candidatura do senador progressista beneficiará Trump. “Bernie Sanders é o candidato mais socialista e liberal disputando a preferência nas primárias democratas presidenciais”, declarou Nate Leupp, dirigente republicano no Estado que defende o voto de seus correligionários para impulsionar Sanders.

Pesquisa sobre as primárias na Carolina do Sul divulgada na semana passada colocava Biden na liderança, com cinco pontos percentuais à frente de Sanders. Mas Leupp afirmou que os republicanos “podem facilmente afetar o resultado”.

Enquanto a campanha de Trump e uma parcela de seu partido trabalham em favor do senador “socialista”, alguns integrantes do Partido Republicano próximos do presidente questionam a estratégia. Para eles, Sanders é o Trump da esquerda, um populista que teria o poder de reconquistar os votos dos trabalhadores do Meio-Oeste que abandonaram o Partido Democrata na última eleição.

Tendências: