SARS, a prévia da gripe suína

Cláudia Trevisan

29 de abril de 2009 | 10h13

A epidemia de SARS que contaminou 8.096 pessoas e matou 774 em 29 países e regiões em 2003 é considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) a mais séria doença contagiosa de tempos recentes. Sua propagação provocou pânico na Ásia e só foi interrompida com a adoção de medidas drásticas, como o compulsório isolamento dos doentes e a quarentena dos suspeitos de portarem o vírus.

Concentrada na China e em Hong Kong, a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS em inglês) paralisou a economia da região durante quase três meses, interrompeu as aulas e levou à imposição de estritos controles sobre o trânsito de pessoas na região, sobretudo em Pequim, cidade que registrou o maior número de casos _cerca de 2.500. A epidemia ocorreu no período de novembro de 2002 a junho de 2003, quando as autoridades conseguiram controlar o processo de propagação do vírus entre humanos.

Mas algumas das medidas que foram cruciais para deter a transmissão da SARS podem se mostrar ineficazes no combate à gripe suína, que parece a nova epidemia global. Entre elas, está o amplo uso de aparelhos que monitoram a temperatura das pessoas, que foram fundamentais na identificação de possíveis doentes e seu imediato isolamento no caso da SARS. “As pessoas podem estar infectadas com o vírus da gripe suína e, mesmo assim, não apresentarem sintomas da doença. Na SARS, os doentes sempre tinham febre”, disse ao Estadão Peter Cordingley, porta-voz da Organização Mundial de Saúde (OMS) para o Leste Asiático. Segundo ele, a SARS foi a primeira grande epidemia do século 21 e, em certo momento, houve o receio de que ela se transformasse em uma pandemia e se espalhasse de maneira descontrolada por todo o mundo.

De acordo com documento da OMS, a “SARS causou mais temor e convulsão social do que qualquer outra doença em nosso tempo. Enquanto matou um número relativamente pequeno de pessoas, ela no entanto conteve economias, prejudicou o comércio e viagens internacionais e esvaziou as ruas de algumas das mais prósperas cidades do mundo”.

Das 774 mortes, 349 foram registradas na China, 299 em Hong Kong, 43 no Canadá, 37 em Taiwan e 33 em Cingapura. Os demais casos fatais ocorreram no Vietnam (5), Tailândia (2), Filipinas (2), Malásia (2), África do Sul (1) e França (1). Na avaliação de Cordingley, a experiência com a SARS mostrou a importância da divulgação de informações sobre a doença e do isolamento dos suspeitos de estarem contaminados. “Os governos não devem guardar informações. O começo da SARS foi muito difícil para a OMS porque não sabíamos o que estava ocorrendo na China”, lembra.

Apesar de o primeiro caso de contaminação pelo vírus ter sido registrado em seu território em novembro de 2002, as autoridades chinesas comunicaram a OMS do problema apenas em fevereiro do ano seguinte e só passaram a combater a epidemia de maneira transparente em abril. Cordingley afirma que os países da região estão bem mais preparados hoje para enfrentar uma epidemia do que em 2003. Desde então, as autoridades investiram em hospitais, em mecanismos de vigilância e controle de doenças transmissíveis, no treinamento de médicos e enfermeiras e no estoque de medicamentos eficazes no combate à gripe, como Tamiflu.

Mas ele ressalta que há diferenças fundamentais entre os dois vírus, que ainda não estão claras para os cientistas. A principal delas é que o vírus da SARS era puramente animal e provavelmente teve origem no gato almiscareiro, enquanto o vírus da gripe suína tem componentes de gripe suína, aviária e humana. Outra diferença é que, até a morte hoje de um bebê nos Estados Unidos, o atual vírus só havia provocado mortes no México, enquanto a SARS teve vítimas fatais em 29 países e regiões.

A brasileira Raquel Martins viveu o período da SARS em Pequim com o marido, Matti Lehtomen, e seus três filhos _Karolina, que na época tinha 10 anos, e os gêmeos Valtter e Idalina, que tinham 8. O que ela mais lembra são as ruas totalmente vazias. “Parecia Pequim na década de 70”, ressalta Raquel, que chegou à China em 1965, com 1 ano de idade.

O norte-americano William Eng, que vive no país desde 1994, também menciona a ausência de movimento na capital. “As escolas foram fechadas, várias empresas deixaram de funcionar e muitos restaurantes também suspenderam as atividades. Os que estavam abertos tinham máquinas para medir a temperatura dos clientes. As mesmas máquinas também eram usadas nos edifícios de escritório. Todo mundo usava máscaras e as pessoas tinham medo de sair de suas casas”, recorda Eng.

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