Saúde pública, livre arbítrio e o surto de sarampo nos EUA

Cláudia Trevisan

03 de fevereiro de 2015 | 00h40

Vacinar os filhos é uma questão de saúde pública ou uma escolha dos pais? Esse debate que parece importado do Século 19 está ocorrendo nos Estados Unidos do Século 21, onde um surto de sarampo contaminou 102 pessoas em 14 Estados desde o início do ano e ameaça fugir ao controle das autoridades sanitárias. A maioria das vítimas são crianças submetidas a decisões de seus pais, que apresentam crenças religiosas ou convicções pessoais para rejeitar a imunização.

Nos últimos três dias, dois potenciais candidatos à presidência pelo Partido Republicano se manifestaram a favor do livre arbítrio dos pais em uma questão que pode colocar em risco a vida dos filhos. Esses políticos são os mesmos que rejeitam o direito ao aborto sob a alegação de que protegem o direito à vida dos embriões.

O sarampo era considerada uma doença erradicada nos Estados Unidos desde o ano 2000, graças à vacina tríplice, que começou a ser usada em 1963 para imunizar crianças contra sarampo, varíola e rubéola. Mas nos últimos anos, aumentou o número de adeptos da não-imunização, em um caldo de cultura que une naturebas ricos da Califórnia a religiosos dos grotões americanos.

O misto de desinformação e fundamentalismo gerou 644 casos da doença em 2014, o maior número em 20 anos. A situação pode se agravar em 2015, com 102 ocorrências registradas em apenas um mês. O Brasil, que tem uma população menor que a dos EUA, teve 204 casos de sarampo no ano passado.

Apesar de todas as evidências científicas demonstrarem os benefícios da vacinação, o senador republicano Rand Paul defendeu a “liberdade” das famílias para decidirem sobre a imunização de seus filhos. O mais alarmante da declaração não é o fato de Paul ser médico, mas sim o de que ele pode ser candidato à presidência por seu partido em 2016. “Eu ouvi muitos casos trágicos de crianças que falavam e andavam normalmente e que ficaram com profundos distúrbios mentais depois de serem vacinadas”, disse Paul, em declarações que contrariam evidências científicas.

Chris Christie, outro aspirante à candidatura presidencial republicana, também deu declarações favoráveis ao livre arbítrio dos pais no caso da imunização de seu filhos. “Os pais devem ter algum grau de escolha nessa questão, portanto deve haver um equilíbrio que o governo tem de definir”, disse Christie. Governador de New Jersey, ele foi menos tolerante no caso de uma enfermeira que se voluntariou para tratar vítimas de Ebola na África no ano passado. Por determinação de Christie, Kaci Hickox foi colocada em quarentena contra sua vontade quando voltou aos Estados Unidos, apesar de não apresentar sintomas da doença e de realizar testes que mostravam a inexistência do vírus em seu organismo. É difícil entender por que o governador republicano acreditava que isolar a enfermeira era uma questão de saúde pública, mas obrigar os pais a vacinar seus filhos pode não ser.

Só para lembrar: entre 1956 e 1960, havia uma média de 540 mil casos de sarampo nos Estados Unidos a cada ano. Em cada um deles, cerca de 500 crianças morriam vítimas da doença.

A desinformação que nutre a rejeição à imunização na maior economia do mundo se origina em parte em um artigo “científico” publicado em 1998 na revista britânica Lancet, segundo o qual haveria uma relação entre a vacina tríplice e o autismo. O estudo era baseado em apenas 12 casos e seu autor, Andrew Wakefiel, perdeu a licença médica por violações éticas e inconsistências em sua pesquisa. Mas 16 anos mais tarde, suas falsas conclusões continuam a influenciar pais nos Estados Unidos, dispostos a colocar em risco a saúde de seus filhos e dos demais em nome de crenças infundadas.