Sexo, corrupção e a expulsão de Bo Xilai do PC chinês

Cláudia Trevisan

28 de setembro de 2012 | 09h25

O midiático Bo Xilai foi expulso hoje do Partido Comunista da China, em uma decisão que coloca fim a um suspense de quase sete meses e representa um revés para a ala esquerdista da organização, seduzida pela estética maoísta e o fortalecimento do poder do Estado promovidos por ele em Chongqing. Filho de um herói revolucionário, Bo era um dos fortes candidatos a integrar o organismo de cúpula do partido, cujos integrantes serão anunciados em congresso marcado para o dia 8 de novembro.

Fora do partido, Bo vai enfrentar agora julgamento sob acusação de corrupção e abuso de poder, que devem lhe valer anos na prisão. A agência de notícias Xinhua disse que o ex-dirigente recebeu “propinas massivas” e manteve relações sexuais “impróprias” com várias mulheres.

De acordo com a investigação realizada nos últimos meses, Bo violou as regras disciplinares do Partido Comunista quando ocupou os cargos de prefeito de Dalian (1993-2000), ministro do Comércio (2004-2007) e administrador de Chongqing (2007-2012). Também cometeu irregularidades na condição de membro do Politburo, a organização de 25 pessoas que é a segunda instância de poder na China.

O fato de que as irregularidades ocorrem desde 1993 revela graves deficiências no sistema de controle interno do Partido Comunista, que repete à exaustão que a corrupção é um dos mais graves problemas do país. Sem imprensa livre nem Judiciário independente, a China não tem mecanismos eficazes de limites ao poder, o que favorece os abusos.

A ascensão de Bo só foi interrompida no início de fevereiro pela espetacular fuga de seu ex-braço direito, Wang Lijung, ao Consulado dos Estados Unidos em Chengdu. Lá, Wang apresentou evidências que responsabilizavam a mulher de Bo, Gu Kailai, pelo assassinato do empresário britânico Neil Heywood, que amanheceu morto em um quarto de hotel de Chongqing em novembro.

Gu foi presa no mês seguinte e condenada à morte em agosto. A pena foi suspensa por dois anos, depois dos quais deverá ser transformada em prisão perpétua. Wang Lijun foi condenado a 15 anos de prisão na semana passada.
O mais assustador do caso é imaginar que Bo poderia ter chegado à cúpula do poder da China, caso não tivesse se desentendido com seu ex-braço direito, em circunstâncias que provavelmente nunca serão reveladas.
Se ele realmente cometeu irregularidades desde 1993, a investigação e as conclusões anunciadas ontem pelo Partido Comunista são a mais contundente evidência de que há algo extremamente disfuncional no autoritário regime da segunda maior economia do mundo.

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