Só 1% do investimento chinês no Brasil é de empresas privadas

Cláudia Trevisan

30 de maio de 2011 | 08h49

Só 1% dos investimentos chineses no Brasil confirmados em 2010 são de empresas privadas. Nada menos que 93% das operações foram realizadas pelas poderosas estatais controladas pelo governo central, enquanto as 6% restantes têm como protagonistas companhias pertencentes a províncias e municípios, revela estudo do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) divulgado sexta-feira.

O levantamento calcula que os investimentos confirmados no ano passado somaram US$ 12,669 bilhões, dos quais 81,6% envolveram a transferência de controle por outras companhias estrangeiras. “Se subtrairmos a troca de controle, obteremos um número surpreendentemente inferior: US$ 1,51 bilhão”, observa a pesquisa.

Em outras palavras, o boom de investimentos chineses registrado em 2010 não significou uma injeção de novos recursos na economia brasileira nem o desenvolvimento de projetos a partir do zero, chamados de greenfield. A grande maioria dos negócios foi de compra de operações que já existiam.

A tendência se mantém se forem considerados os US$ 35,75 bilhões resultado da soma dos US$ 12,669 bilhões de investimentos confirmados com os US$ 23,062 anunciados, mas ainda não efetivados.
Desse total, 67% são relativos a fusões totais ou parciais, 10% se referem a joint-ventures e 23% são empreendimentos greenfield, mostra o levantamento.

Mesmo sem um impacto econômico imediato, o CEBC ressalta que o aumento dos investimentos em 2010 marca uma mudança no relacionamento entre os dois países, que até então era excessivamente focado no comércio.

Dos US$ 12,669 bilhões em negócios confirmados no ano passado, 95% se concentram nas áreas de petróleo e gás, agribusiness, mineração e siderurgia. O embaixador Sergio Amaral, diretor-presidente do CEBC, diz que esses investimentos colocam o Brasil na base mundial de fornecimento dos produtos que a China precisa para sustentar seu crescimento e alimentar sua população de 1,3 bilhão de pessoas.

Esse interesse já se reflete na composição da pauta de exportações brasileiras para o país asiático, na qual 80% das vendas são dominadas por três produtos básicos: minério de ferro, soja e petróleo. “Como não dispõe internamente da diversidade e do volume necessário de recursos naturais para manter suas taxas de crescimento, há alguns anos a China consolida uma base internacional de fornecimento de matérias-primas a partir da Indonésia, Austrália e países da África”, ressalta o documento do CEBC.

Mas o estudo mostra que os investimentos anunciados em 2010 e ainda não confirmados indicam o aumento do interesse chinês no mercado interno brasileiro e na inserção no “tecido industrial” do país. Na avaliação de Amaral, há uma tendência de diversificação dos negócios e de aumento do peso de setores como telecomunicações e tecnologia.

Segundo ele, a expansão dos investimentos do país asiático representa um novo desafio para o país e exige uma estratégia que os direcione para as áreas que mais interessam ao desenvolvimento nacional. “Precisamos de uma política industrial particular para a China”, defendeu o embaixador.

No ano passado, só duas megaoperações no setor de petróleo e gás absorveram US$ 10,18 bilhões dos US$ 12,669 bilhões de investimentos confirmados. A maior delas, no valor de US$ 7,109 bilhões, envolveu a compra de 40% das operações brasileiras da espanhola Repsol pela Sinopec. A outra foi a negociação de 40% do campo de petróleo Peregrino, explorado pela norueguesa Statoil, pelos quais a Sinochem pagou US$ 3,07 bilhões.

Amaral acredita que esse cenário mudou em 2011, o que teria ficado claro durante a visita da presidente Dilma Rousseff à China em abril, durante a qual foram anunciados investimentos de empresas de tecnologia. As fabricantes de equipamento de telecomunicações ZTE e Huawei revelaram que destinarão US$ 200 milhões e US$ 350 milhões, respectivamente, à construção de centros de pesquisa no Brasil.

Outra característica dos negócios anunciados em 2011 é o predomínio dos projetos greenfield. O estudo do CEBC indica que entre os dez investimentos chineses no Brasil divulgados desde o início deste ano, oito se referem à construção de novas fábricas ou centros de pesquisa e desenvolvimento.

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