Sobreviventes contam como escaparam do tsunami

Cláudia Trevisan

18 de março de 2011 | 09h34

Antes de ver a água, Setsuko Otomo ouviu o som aterrorizante das ondas gigantescas que se aproximavam. Quando levantou o olhar, postes e casas se moviam no horizonte e ela soube que tinha que correr o mais rápido possível. O tsunami estava em seu encalço, a uma distância de aproximadamente 20 metros, e engoliu muitos dos que também tentavam se salvar da avalanche de água que devastou Rikuzentakata.

Pouco sobrou da cidade que tinha 24 mil habitantes antes do desastre de sexta-feira, transformada em um mar de lama e entulho que se estende por quase dez quilômetros.

Vestígios do que antes eram casas aparecem soterrados nos pedaços de madeira, ferro e concreto, em meio do qual há centenas de carros. O prefeito Futoshi Toba parecia em estado de choque quando visitou ontem um dos abrigos para refugiados, no qual estão 1.000 pessoas. Ele disse que não saber ainda o número de mortos em sua cidade, entre os quais está sua mulher.

Rikuzentakata já havia sido vítima das ondas gigantes há 50 anos, no que ficou conhecido como o Tsunami do Chile, porque foi provocado por terremoto no país latino-americano. Seus moradores sabiam que o desastre voltaria a ocorrer e levantaram um muro de cinco metros de altura na praia para barrar seu avanço.

O que ninguém esperava é que o tsunami fosse tão violento e veloz. As ondas de até 10 metros ultrapassaram facilmente a barreira e arrastaram tudo pelo caminho. “Quando falamos em tsunami pensamos em água, mas o que veio foram os destroços das casas destruídas”, recordou Isitsu Katsuo.

Junto com a mulher, Yamamoto, e suas duas filhas, Isitsu também escapou correndo da avalanche. “Eu vi pessoas atrás de mim sendo arrastadas pela água. É um milagre que nós estejamos vivos”, disse ela, chorando. 

Sato Hidomi morava a 15 minutos de carro da costa de Rikuzentakata e acreditava que sua família estava a salvo da ameaça de um tsunami. Quando viu a espuma levantada pelo avanço da água, pensou que se tratava de fumaça gerada por incêndios. Ela só percebeu o que estava acontecendo quando as pessoas começaram a abandonar os carros nos quais tentavam sair da cidade e correr.

A única pessoa que estava na casa além dela era sua mãe, de 72 anos. As duas se juntaram aos outros na fuga desesperada, mas Sato chegou sozinha à montanha que fica nas proximidades de sua casa. Sua mãe desapareceu, provavelmente levada pelas ondas. Ontem ela continuava a busca por seu corpo no necrotério da cidade. “Nós perdemos tudo, mas não fomos apenas nós. Todos os que estão aqui perderam tudo”, disse Sato.

Funcionário de uma empresa que fabrica molho de soja, Yamaguchi Ko se abrigou em um lugar alto da cidade logo depois do terremoto de 9,0 graus na escala Richter, o mais violento já sofrido pelo Japão.

De lá, assistiu ao avanço das ondas, que arrastaram o edifício onde ele trabalhava e os carros que estavam estacionados ao redor. Logo depois, viu a água chegar à sua casa, que desapareceu sob a violência do tsunami. “O som da água era estrondoso e vinha de 360 graus. Parecia que eu estava em filme”, lembrou ontem no abrigo, no qual está com a mulher, os pais e a filha.

O refúgio foi instalado no ginásio de esportes de uma escola secundária, onde no momento do terremoto os estudantes ensaiavam sua cerimônia de graduação.

Mao Kanno, de 14 anos, é uma das alunas do local e jogava cartas com quatro amigas na tarde de ontem. Nada sobrou do lugar onde elas viviam. Os pais de Mao estão bem, mas seus avós desapareceram sob as águas.

Um desabrigado que se identificou apenas pelo sobrenome, Abe, sobreviveu porque se refugiou no prédio da prefeitura, um dos únicos a resistir à violência do tsunami. Os que estavam lá tiveram foram para o teto do edifício de quatro andares, para escapar da água que subia rapidamente.

Há 50 anos, quando houve o Tsunami do Chile, Abe tinha 4 anos. Ele não se lembra de nada, mas sabe que a água quase na porta da prefeitura. Na sexta-feira, ela avançou quilômetros além da construção. Como quase todos os moradores de Rikuzentakata, Abe perdeu tudo o que tinha e sua mãe está desaparecida.

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