Socialista? Biden desperta democratas moderados e tira bandeira de Trump

Ex-vice de Obama disparou nas pesquisas desde o anúncio de sua pré-candidatura, há poucos mais de um mês; média dos levantamentos dá a ele 38,3% das intenções de voto entre democratas, uma vantagem de 20 pontos em relação a Bernie Sanders, o segundo colocado

Cláudia Trevisan

21 de maio de 2019 | 00h34

O rótulo de “socialista” que Donald Trump planejava grudar em seu oponente democrata em 2020 está rapidamente perdendo sua cola. A entrada do ex-vice-presidente Joe Biden na disputa pela candidatura de seu partido revelou que os eleitores democratas são muito mais moderados do que o barulho da ala mais à esquerda do partido fazia supor. Inúmeros analistas descreviam Biden como representante de um passado que não encontraria mais eco no cada vez mais diverso e jovem Partido Democrata. Eles estavam errados.

Assim que anunciou sua intenção de concorrer à Casa Branca, há pouco mais de um mês, o ex-presidente disparou nas pesquisas e abriu uma vantagem significativa em relação ao segundo colocado, Bernie Sanders, contra quem Trump poderia usar a cartada do “socialismo”. Na média dos levantamentos calculada pelo site Real Clear Politics, Biden tem 38,3% das intenções de votos entre os democratas, enquanto Sanders obtém 18,8%, uma diferença de quase 20 pontos percentuais.

É cedo para dizer se a liderança do ex-vice de Barack Obama se manterá até as primárias do próximo ano, quando o partido escolherá o candidato que enfrentará Trump. Biden se beneficia do elevado reconhecimento de seu nome e será atacado por adversários durante a disputa. Mas sua força mostra que havia exagero no hypeem torno da esquerda do partido, que, além de Sanders, é representada por nomes como Alexandria Ocasio-Cortez e Elizabeth Warren. A entrada de Biden mostrou que os democratas estão muito mais alinhados ao centro. Em levantamento Judy Ford Wason Center for Public Policydivulgado em abril, 56% dos filiados à legenda se identificaram como “moderados”, enquanto 9% se disseram “conservadores”.

O grande trunfo de Biden é a percepção de que ele é o democrata com mais chances de derrotar Trump nas eleições gerais de 2020. A média do Real Clear Politicsdá a ele uma vantagem de 8,1 pontos percentuais sobre o presidente: 48,7% versus 40,6%. Obama derrotou o republicano John McCain em 2008 com uma diferença de 7,2 pontos percentuais. Na Pensilvânia, um dos Estados-chave para a vitória de Trump em 2016, Biden lidera com 10,5 pontos de vantagem. A capacidade de derrotar o atual presidente é de longe a principal característica que os democratas buscarão em seu candidato a presidente, com 49% das menções em levantamento do instituto Ipsos. Ter fortes posições em relação à assistência médica apareceu em um distante segundo lugar, com 13%, seguido pela habilidade de unir o partido, com 10%. Segundo pesquisa da Universidade Quinnipiac, 56% dos democratas acreditam que Biden tem mais chances de derrotar Trump do que outros pré-candidatos. Apenas 12% pensam o mesmo em relação a Sanders.

A principal fragilidade de Biden é sua idade: ele terá 78 anos quando as eleições forem realizadas, em novembro de 2020. Mas esse elemento deverá ser diluído pelo fato de que seus principais concorrentes também são septuagenários. Sanders, com quem o ex-vice disputa a nomeação democrata, é um ano mais velho e terá 79. Trump, o candidato republicano, fará 74 anos seis meses antes do pleito.

Biden também é criticado por posições controvertidas que adotou no passado em questões raciais e por não ter apoiado Anita Hill quando ela acusou o atual integrante da Suprema Corte Clarence Thomas de abuso sexual, em 1991. Na época, Biden era presidente da Comissão de Justiça do Senado e presidiu um painel de homens brancos que questionaram Hill, advogada, acadêmica e negra.

Mais recentemente, o ex-vice foi acusado por sete mulheres de tocá-las de maneira que elas consideraram inapropriada. Biden se defendeu com a alegação de que tem um estilo afetuoso e costuma abraçar pessoas ou colocar as mãos sobre seus ombros para demonstrar empatia. Por enquanto, nenhuma das controvérsias afetou sua popularidade nos segmentos que seriam ofendidos por seus atos. Segundo pesquisa da CNN, o ex-presidente alcança 50% de intenções de votos entre eleitores não-brancos e 39% entre as mulheres, patamar idêntico à média obtida por ele entre todos os democratas.

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