Sucessão no totalitarismo hereditário da Coreia do Norte

Cláudia Trevisan

22 de setembro de 2010 | 04h38

Trinta anos depois da consagração de Kim Jong-il como futuro sucessor de seu pai, Kim Il-sung, a Coreia do Norte deverá ver na próxima semana a terceira troca de comando de seu totalitarismo hereditário, com a provável escolha de Kim Il-un como futuro líder supremo do país.

Filho mais novo de Kim Jong-il, Kim Il-un tem menos de 30 anos e uma biografia virtualmente desconhecida fora da Coreia do Norte. Entre as poucas informações sobre sua vida está a de que frequentou uma escola na Suíça durante a adolescência.

O primeiro congresso do Partido dos Trabalhadores em três décadas estava marcado para o início de setembro, quando a chegada de delegados à capital Pyongyang chegou a ser noticiada pela agência oficial de notícias norte-coreana.

O encontro foi cancelado sem explicação e referências a ele desapareceram nos textos governamentais. Analistas apontam três possíveis razões para o adiamento: ausência de consenso sobre o processo sucessório, a frágil saúde de Kim Jong-il ou as enchentes que atingiram o país no fim de agosto e afetaram a já precária oferta de alimentos no país.

Com 68 anos, Kim Jong-il teria sofrido um derrame em 2008 e sua crescente debilidade física ficou visível em fotos tiradas durante visitas que realizou à China, a mais recente das quais em agosto.

Se Kim Il-un for realmente escolhido como sucessor de seu pai na próxima terça-feira, não está claro se ele assumirá imediatamente o poder ou ocupará outro cargo, durante um período de transição.

Kim Jong-il foi consagrado como sucessor em 1980, mas só chegou ao comando do país em 1994, depois da morte de seu pai, Kim Il-sung, o heroi da revolução norte-coreana. Em razão do precário estado de saúde do atual dirigente, Kim Il-un não terá o mesmo tempo de preparação para o cargo que seu pai, caso venha a ser apontado como futuro líder norte-coreano.

Também há dúvidas sobre o rumo que a Coreia do Norte adotará no terreno econômico depois da conclusão do processo sucessório. A expectativa de que haja algum movimento na direção de reformas foi alimentada pela reabilitação de Pak Pan Ju, 71, que era responsável pela área econômica e perdeu o posto há três anos por defender mudanças pró-mercado. Em 2002, ele fez parte de uma delegação que visitou a Coreia do Sul para estudar o sistema capitalista.

Pak voltou ao governo em agosto, ocupando um cargo de direção no Comitê Central do Partido dos Trabalhadores. Outro integrante da delegação de 2002, Pak Nam Gi, foi executado no começo deste ano depois que medidas que adotou como ministro das Finanças provocaram inflação e a brutal perda de valor da moeda local.

O período que antecedeu a sucessão foi marcado pelo tom belicoso de Kim Jong-il em relação à comunidade internacional, o que muitos analistas viram como uma estratégia para ganhar o apoio da linha dura do Exército a seu filho mais novo.

A Coreia do Norte abandonou as negociações sobre seu programa nuclear em abril de 2009, depois que o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) condenou o lançamento de um foguete pelo país, no que teria sido um teste para o transporte de mísseis balísticos intercontinentais. Pyongyang sustentou que havia lançado um satélite de comunicação. 

No mês seguinte, a Coreia do Norte promoveu seu segundo teste nuclear em menos de três anos, em um aberto desafio ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), que já havia condenado o anterior, realizado em 2006.

Há quatro meses, a Coreia do Sul acusou o Norte de ter afundado o navio de guerra Cheonan no dia 26 de março, provocando a morte de 46 marinheiros. Pyongyang negou a acusação e ameaçou declarar guerra ao país vizinho caso fosse alvo de sanções.

A hostilidade entre os dois lados da península coreana diminuiu nos meses seguintes, especialmente depois das enchentes que atingiram a região em agosto, que levaram o Sul a doar alimentos para o Norte.

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