Taiwan, Hong Kong e o efeito Orloff

Desaparecimento de livreiros, expulsão de jornalista britânico e banimento de partido pró-independência estão entre os ataques às liberdades civis registrados na ex-colônia britânica

Cláudia Trevisan

11 de junho de 2019 | 00h04

Talvez nenhum outro lugar do planeta tenha acompanhado com tanta atenção as massivas manifestações que ocuparam as ruas de Hong Kong no domingo quanto Taiwan. Os atuais governantes da ilha considerada uma província rebelde por Pequim olham para a ex-colônia britânica sob as lentes do efeito Orloff (eu sou você amanhã) e rejeitam o futuro de uma reunificação com a China dentro do modelo “um país, dois sistemas”.

Quando Hong Kong retornou ao controle de Pequim em 1997, seus habitantes receberam a promessa de que manteriam por 50 anos as liberdades civis e o Estado de Direito adotados durante o século e meio de colonização britânica. A ilha nunca teve democracia, mas desfrutava de garantias inexistentes na China continental, entre as quais a liberdade de imprensa e de expressão e um Judiciário independente.

Apesar de ainda faltarem 28 anos para 2047, quando os 50 anos se completam, muitas das liberdades civis de Hong Kong estão sob ataque da China continental. O alvo das manifestações de domingo foi o projeto de lei que permite a extradição para a China de acusados da prática de crimes. Os críticos da proposta afirmam que ela abre caminho para opositores políticos em Hong Kong serem enviados para julgamentos pelo nada independente sistema judicial de Pequim, no qual imperam os desígnios do Partido Comunista.

No início do ano, Xi Jinping ofereceu aos taiwaneses a reunificação com a China sob modelo de “um país, dois sistemas”, o mesmo adotado em Hong Kong. Nas horas subsequentes à manifestação de domingo, a presidente da ilha, Tsai Ing-wen, reiterou sua rejeição à proposta e manifestou solidariedade aos manifestantes da ex-colônia britânica. “Nós estamos ao lado do povo amante da liberdade de #HongKong. Em seus rostos, nós vemos o anseio pela liberdade & somos lembrados de que a democracia arduamente conquistada de #Taiwan deve ser protegida & renovada por cada geração”, escreveu Tsai em sua conta no Twitter.

Taiwan é a ilha para a qual fugiram os nacionalistas derrotados pelos comunistas na guerra civil da China, encerrada em 1949. Governada de maneira ditatorial e sob lei marcial até 1987, a ilha realizou sua primeira eleição direta para presidente em 1996. “Hong Kong vive a realidade de ‘um país’ e a ilusão de ‘dois sistemas’”, afirmou a porta-voz do Partido Democrático Progressista de Taiwan, Isis Lee, de acordo com relato do jornal Taipei Times.

O cerco às liberdades civis da ex-colônia se intensificou a partir de 2014, quando Hong Kong registrou o “Movimento dos Guarda-Chuvas”, uma série de protestos pró-democracia que durou três meses. No ano seguinte, cinco pessoas ligadas à livraria Causeway Books, especializada em livros políticos críticos ao regime de Pequim, desapareceram em circunstâncias suspeitas. Quatro reapareceram meses mais tarde, mas apenas um deles falou publicamente sobre sua saga. Lam Wing-kee disse ter sido sequestrado por forças de segurança da China, onde teria sido mantido por oito meses. No fim de abril, ele se mudou para Taiwan, pelo temor de ser extraditado para a China depois da possível aprovação da proposta contestada pelos manifestantes no domingo. Cidadão sueco, Gui Minhai desapareceu na Tailândia, onde vivia, e ressurgiu meses depois na China em um vídeo no qual “confessou” crimes e disse ter se entregado às autoridades do país espontaneamente. Gui continua preso.

No ano passado, a reputação pró-liberdade de imprensa de Hong Kong sofreu um golpe com a decisão do governo local de negar a renovação do visto de trabalho ao jornalista britânico Victor Mallet, editor para Ásia do Financial Times. “Esse é um grande ponto de inflexão”, disse na época Keith Richburg, diretor do Centro de Estudos da Mídia da Universidade de Hong Kong, em entrevista à publicação Columbia Jornalism Review. “Essa é a primeira vez que alguém se lembra de um jornalista ter sido informado de que não poderia trabalhar em Hong Kong.”

Poucos meses antes de sua expulsão, Mallet havia sido moderador de uma conversa com um ativista pró-independência no Clube de Correspondentes Estrangeiros de Hong Kong, do qual era vice-presidente. O convidado era Andy Chan, de 28 anos, fundador do primeiro partido a ter como plataforma a defesa da independência da ilha. No mês seguinte à sua participação no evento do Clube de Correspondentes, a legenda foi declarada ilegal e banida de Hong Kong.

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