Tatuagens, topetes e a busca da identidade individual em Cuba

Tatuagens, topetes e a busca da identidade individual em Cuba

Cláudia Trevisan

27 de março de 2016 | 21h41

Talvez pelos ventos do Caribe, o socialismo em Cuba nunca teve a homogeneidade estética que marcou a China dos anos de Mao Tsé-tung. Com as tímidas reformas iniciadas por Raúl Castro em 2010 e a chegada de uma nova geração às ruas, a busca de um estilo individual ganhou ainda mais proeminência na paisagem urbana de Havana. As agentes que trabalham na imigração do aeroporto José Martí usam minissaias e meias pretas com desenhos elaborados. Na ilha que transformou Che Guevara em ícone pop, os homens se dedicam com afinco à busca de um estilo pessoal, com elaborados penteados, correntes douradas, pulseiras e brincos. Reprovadas há meia década, as tatuagens são cada vez mais comuns. Camisetas com escritos em inglês e roupas com a estampa da bandeira americana passeavam pelas ruas de Havana muito antes da chegada de Barack Obama à cidade, no dia 20 de março.

Os grandes negócios continuam sob forte controle do Estado, mas aumentou o espaço dos chamados cuentapropistas, o eufemismo usado pelo governo para se referir à nova classe de empreendedores do país. O barbeiro Dorian Carbonell Fernandez colocou seu talento a serviço da incessante busca por estilo dos homens cubanos. Todas as noites, jovens vão ao Donde Dorian para lavar, cortar e fazer penteados que o hair stylist chama de vintage. Também fazem tratamentos, tiram a sombrancelha e cada vez mais pintam os cabelos. A trilha sonora do salão é lounge e os clientes podem tomar coquetéis no bar que fica na entrada do salão.

O casal gay Livian Puertas e Yuri Reyes possui desde dezembro uma loja de aluguel de trajes e acessórios para casamentos e festas de 15 anos chamada Gaya. Sem um mercado atacadista para comprar os produtos e impossibilitados de importá-los em grande escala, eles viajam quando podem aos EUA atrás das roupas. As mercadorias voltam para Cuba em suas bagagens, dentro dos limites permitidos pelo governo: dois vestidos de noiva, dez vestidos de noite e dez pares de sapatos. Com 39 anos, Puertas disse que nunca enfrentou problemas em Cuba por sua orientação sexual. “Minha geração nasceu em um momento diferente.”

A principal queixa dos jovens é a dificuldade de acesso à internet. Existem cerca de 40 pontos com wi-fi em praças e ruas de Havana, nos quais os usuários pagam US$ 2,00 por cada hora online. Nesses lugares públicos, os cubanos falam com amigos e parentes que estão no exterior por meio do Imo, a versão para o Android do Facetime. Ohando para as telas de seus celulares ou tablets, eles conversam ao ar livre, ao lado de dezenas de outras pessoas conectadas, em uma experiência online coletiva.

Parte do centro histórico de Havana foi restaurada, mas a maior parte dos edifícios antigos da capital continua em estado deplorável. Alguns desmoronaram, em outros só a fachada sobreviveu e muitos parecem ter sido alvo de bombardeios ou de um terremoto. Os cubanos se queixam dos salários irrisórios, do elevado preço dos alimentos e da escassez de vários produtos, mas mantêm o bom humor.

A seguir, algumas das fotos que tirei em meus 11 dias em Cuba:

Contagem regressiva para os Rolling Stones

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Dorian Fernandez (à direita) em seu salão Donde Dorian

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O cabeleireiro Leo Llanes (à esquerda)

blogleo

Livian Puertas em sua loja de aluguel de roupas para festas

blogfesta

Internet em praça pública

blogcuba

Gorki Aguilar, da banda punk Pornô para Ricardo

bloggorki

No estúdio de tatuagem

blogtatoo

No Malecón

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Paladar em Habana Vieja

blogpaladar

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