Torci pela Argentina

Cláudia Trevisan

27 de junho de 2010 | 17h14

Torci pela Argentina. Sei que isso soa como uma heresia capaz de levar à excomunhão da brasilidade em tempos de Copa do Mundo. Sentei para ver o jogo disposta a desejar a vitória do México, mas me peguei gritando de entusiasmo no primeiro gol da Argentina _antes de saber que ele era irregular. Naquele momento, percebi que ainda carrego o vínculo com o país construído nos dois anos e meio em que vivi em Buenos Aires, como correspondente do Valor Econômico, de 2000 a 2002.

Tenho um enorme carinho enorme pelos hermanos e estava em Buenos Aires quando a seleção da Argentina foi eliminada pela Suécia na Copa da Coreia do Sul e do Japão, em 2002. O país estava mergulhado na mais grave crise econômica e política de sua história e a derrota no futebol parecia confirmar o mau momento coletivo dos argentinos. A seleção de Batistuta e Caniggia havia chegado ao Mundial como uma das favoritas, o que deu um alento a nossos vizinhos em meio ao “corralito” e à desvalorização do peso, que colocou fim à ilusão da paridade com o dólar e deixou todos mais pobres.

Embalada pelo entusiasmo do país com a Copa, a Coca-Cola fez uma propaganda para a TV que funcionou como uma premonição ao contrário e se revelaria uma das grandes ironias daquele período. A peça se passava em uma casa na Suécia e uma criança aparecia sozinha na cozinha, de madrugada. Em seguida, o pai entrava e perguntava em sueco, com legendas em espanhol: “Que pasa hijo?”. O filho, respondia “tengo miedo, papa” e olhava para uma revista na qual estava estampada em duas páginas a foto da seleção argentina, com seu uniforme celeste e branco. O pai sueco sucumbia: “Yo también, hijo”. E aparecia a Coca-Cola. No fim, a Argentina foi eliminada em um jogo com a Suécia que a temia.

Em razão do fuso horário, a partida foi de madrugada e não consegui assisti-la. Mas quando acordei no dia seguinte, tive certeza de que a Argentina havia perdido antes mesmo de sair da cama. Buenos Aires estava muda. Eu não ouvia ônibus, vozes, carros, nada. Até os pássaros pareciam estar de luto. Quando sai à rua, todos estavam destroçados _o porteiro do meu prédio, o dono da banca de jornal, o garçons, o taxista. A derrota parecia ser a negação da única possibilidade de contentamento em meio à depressão coletiva decorrente da crise.

Acho que a memória da dor argentina naquela derrota também alimentou meu grito de gol azul e branco. Claro que ele deixará de existir na hipótese de a Argentina enfrentar o Brasil. Não entendo nada de futebol, mas pelo que vi nas duas partidas de hoje, los hermanos terão que transpirar muito para passar pelos alemães.

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