Trump em seu labirinto norte-coreano

Nos EUA, é crescente o número de especialistas que acreditam que a janela de oportunidade para forçar Pyongyang a abandonar suas ambições nucleares já se fechou. Para eles, Washington deveria dar prioridade a limitar o programa, evitar a exportação de tecnologia nuclear e estabelecer canais de comunicação que previnam erros de cálculo e exacerbação de conflitos

Cláudia Trevisan

03 de janeiro de 2019 | 00h44

Com sua típica megalomania e escassa atenção aos fatos, o presidente Donald Trump declarou em junho que havia “resolvido o problema” da Coreia do Norte. Em seu discurso de Ano Novo de 2019, o ditador Kim Jong-un deixou claro que o caminho para esse objetivo mal começou a ser trilhado e relevou a distância entre a realidade e a retórica do ocupante da Casa Branca.

Pouco mais de seis meses depois do encontro em que ambos celebraram a ideia de uma península coreana sem armas nucleares, Kim verbalizou o que muitos analistas antecipavam: a sua tradução de “desnuclearização” é radicalmente distinta da encontrada no dicionário de Trump.

Para o norte-coreano, ela implica concessões equivalentes dos Estados Unidos e a eliminação de qualquer ameaça americana a seu país. Também há divergências em relação ao processo para se chegar ao destino final. Kim condicionou futuras restrições de Pyongyang em relação a seu programa nuclear à redução das sanções impostas por Washington. Desde o início do seu governo, Trump tem repetido que qualquer gesto nesse sentido só será feito depois de a Coreia do Norte eliminar seu arsenal, demanda que parece mais irreal a cada novo dia.

No discurso de Ano Novo de 2018, Kim declarou que havia atingido seu objetivo no front nuclear e passaria a focar seus esforços no desenvolvimento econômico, para o qual precisa do desmonte das barreiras econômicas impostas pelos EUA. Poucas semanas antes, a Coreia do Norte havia interrompido seus testes nucleares e de mísseis, o que garantiu um 2018 muito menos turbulento do que o 2017, ano em que Trump ameaçou destruir o país governado pelo “pequeno homem-foguete”.

Mas a suspensão não significou o congelamento do programa nuclear norte-coreano. Pelo contrário. Três semanas depois da cúpula entre Trump e Xi, realizada no dia 12 de junho, a imprensa dos EUA revelou que os serviços de inteligência americanos estavam convencidos de que Kim não tinha nenhuma intenção de abrir mão de seu arsenal e trabalhava para esconder instalações nucleares dos Estados Unidos. Segundo os espiões de Washington, Pyongyang continou a produzir combustível e armas nucleares depois do encontro. Em agosto, a Agência Internacional de Energia Atômica chegou à mesma conclusão.

Nos EUA, é crescente o número de especialistas que acreditam que a janela de oportunidade para forçar a Coreia do Norte a abandonar suas ambições nucleares já se fechou. Para eles, Washington deveria dar prioridade a limitar o programa, evitar a exportação de tecnologia nuclear pelo regime de Kim e estabelecer canais de comunicação que previnam erros de cálculo e a exacerbação de conflitos.

Isso exigiria uma mudança na postura do governo Trump, que demanda a total eliminação da capacidade nuclear norte-coreana. Também traria riscos ao sistema de não-proliferação, com a ameaça de uma corrida armamentista na Ásia. Mas a realidade é que a Coreia do Norte já é um Estado nuclear e dificilmente abrirá mão dessa condição.

Em seu recente pronunciamente de Ano Novo, Kim declarou que seu regime não irá mais produzir ou testar armas nuclares nem promover sua proliferação. Se cumprida, a promessa representaria o congelamento do programa norte-coreano, com a manutenção do arsenal de 20 a 60 ogivas em poder de Pyongyang e dos mísseis com poder de lançá-las a milhares de quilômetros de distância. Isso está bem aquém do exigido por Trump.

Kim adotou um tom cordial e disse que está disposto a se encontrar com o presidente americano mais uma vez. Ainda assim, fez ameaças: “Se os Estados Unidos não mantiverem sua promessa a nossa comunidade internacional e interpretarem erroneamente nossa paciência e intenção e continuarem com sanções, então nós não teremos outra escolha em nome do interesse nacional e da paz na península coreana do que adotar novas iniciativas e novas medidas”. Kim só não disse o que isso significa.