Trump está do lado perdedor da história

Cláudia Trevisan

15 Agosto 2017 | 23h31

Donald Trump ficou do lado perdedor da história na entrevista coletiva em que defendeu extremistas brancos que inflamaram a cidade de Charlottesville no fim de semana, provocando a morte de uma pessoa. O presidente do país que lutou contra a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial disse que havia pessoas “muito boas” entre os que marcharam com tochas nas mãos e aos gritos de “Judeus não vão tomar nosso lugar” na sexta-feira. Também defendeu a preservação de estátuas erguidas em homenagem aos generais que combateram os EUA e Abraham Lincoln na Guerra da Secessão (1861-1865).

Construídos no período sombrio de segregação racial que continuou a imperar nos Estados derrotados pelo Norte, esses monumentos são vistos como símbolos de opressão pela população negra e por muitos dos brancos americanos. Em declarações que chocaram grande parte do país, o presidente defendeu participantes de uma marcha na qual suásticas, bandeiras confederadas do Sul e símbolos de supremacia branca foram exibidos com orgulho. E culpou os “esquerdistas” que se opunham a ela pela violência que tomou conta de Charlottesville.

Ao fazer uma equivalência moral entre os dois lados, Trump encorajou e fortaleceu os supremacistas brancos, que ganharam espaço com a ascensão de sua candidatura. David Duke, um dos ex-líderes da Ku Klux Klan, agradeceu a “coragem” e a “honestidade” do presidente por supostamente falar a “verdade” sobre Charlottesville.

Comentaristas e políticos que apareceram ao longo do dia na CNN e na MSNBC estavam chocados diante de um presidente que parecia inverter os valores que passaram a ser predominantes na sociedade americana décadas depois do movimento pelos direitos civis que levou ao fim da segregação. “Cegueira moral” e “ausência de clareza moral” foram algumas das expressões mais ouvidas.

As declarações de Trump foram criticadas até na conservadora Fox News, que costuma apoiá-lo de maneira quase incondicional. “Ainda estou me perguntando se o que acabei de ver aconteceu na vida real”, disse a comentarista Kat Timpf. “Uma reunião cheia de supremacistas brancos e nazistas não tem pessoas boas. Todas são pessoas más. Ponto.”

O analista político David Gergen -que trabalhou com os presidentes republicanos Richard Nixon, Gerald Ford e Ronald Reagan e o democrata Bill Clinton- disse na CNN que teme pelo futuro dos EUA sob o comando de Trump. “Ele está nos despedaçando”, afirmou, em relação à retórica carregada de conotação racial do presidente.

Enquanto neo-nazistas e supremacistas brancos elogiavam Trump nas redes sociais, integrantes de seu partido o criticavam. “Culpar os ‘dois lados’ por #Charlottesville?! Não. Voltar ao relativismo quando lidamos com KKK, simpatizantes nazistas, supremacistas brancos? Simplesmente não”, escreveu a deputada Ilena Ros-Lehtinen no Twitter.

Candidato à presidência pelo Partido Republicano em 2012, Mitt Romney também se manifestou na mídia social: “Não, não é o mesmo. Um lado é racista, intolerante, nazista. O outro se opõe ao racismo e à intolerância. Diferentes universos morais”. O senador Marco Rubio foi outro republicano que rejeitou a posição de Trump: “Esses grupos usam hoje os MESMOS símbolos & os mesmos argumentos dos grupos #Nazi & #KKK responsáveis por alguns dos piores crimes já cometidos contra a humanidade”.

Mas ainda não está claro se a defesa de Trump de grupos extremistas afetará sua popularidade entre os eleitores republicanos. Pesquisas recentes indicam que mais de 70% deles têm uma boa avaliação da performance do presidente. “Republicanos honestos precisam se perguntar como permitiram que seu partido chegasse a esse lugar sombrio, horrível, e o que eles pretender fazer em relação a isso.” O partido que se opôs à escravidão sob Abraham Lincoln corre o risco de se tornar o partido de Trump e dos supremacistas brancos.