Trump ganha batalha cultural contra jogadores negros da liga de futebol americano

NFL decide que times serão punidos caso algum de seus integrantes se recuse a ficar em pé durante a execução do hino nacional; os que quiserem protestar deverão ficar no vestiário, longe dos olhos do público

Cláudia Trevisan

23 Maio 2018 | 22h22

Donald Trump ganhou uma das principais batalhas culturais que dividiram a sociedade dos EUA no ano passado. Depois de meses de pressão do presidente e de seus seguidores, a liga de futebol americano (NFL) anunciou que times serão punidos caso algum de seus jogadores se recuse a ficar em pé durante a execução do hino nacional. O principal alvo da medida são atletas negros, que representam 70% dos integrantes das equipes do esporte mais popular do país. Muitos deles se recursaram a ficar em pé e se ajoelharam ao longo de meses em protesto contra a violência policial que atinge os afro-americanos de maneira desproporcional.

Craque na manipulação de símbolos e na criação de narrativas do tipo “nós contra eles”, Trump caracterizou os protestos como um gesto anti-patriótico, de desrespeito à bandeira dos EUA. O discurso encontrou eco em grande parte dos fãs da NFL, 83% dos quais são brancos. A liga decidiu que aqueles que quiserem protestar deverão ficar no vestiário, longe dos olhos do público.

Ironicamente, a nova orientação foi anunciada no mesmo dia em que uma juíza de Nova York decidiu que a prática de Trump de bloquear críticos no Twitter é uma violação da Primeira Emenda da Constituição dos EUA, que garante a liberdade de expressão e de manifestação. Na opinião da magistrada Naomi Buchwald, a conta do presidente na mídia social é equivalente a um “fórum público”, no qual o bloqueio com base em posições políticas representa uma violação da Primeira Emenda.

A onda de protestos dos jogadores da NFL começou em meados de 2016, quando Colin Kaepernick, do San Francisco 49ers, se recusou a ficar em pé durante a execução do hino nacional para protestar contra a injustiça racial nos EUA. “Eu não vou me levantar para demonstrar orgulho de uma bandeira de um país que oprime pessoas negras e pessoas de cor”, disse ele na época à NFL Media.

Apesar de 70% de seus jogadores serem negros, todos os que detêm controle majoritário ou são CEOs ou presidentes de times são brancos. Não por acaso, o patriotismo ganhou na disputa com o protesto contra a violência racial e a liberdade de expressão.