Trump não é febre passageira

Cláudia Trevisan

21 de fevereiro de 2016 | 04h00

Se você duvidava que Donald Trump poderia ser o candidato à presidência dos EUA pelo Partido Republicano, é melhor repensar suas convicções. O bilionário e celebridade de reality show mostrou no sábado que seu apelo não é uma febre passageira e que tem fôlego para manter a liderança na corrida de obstáculos pela nomeação de sua legenda na disputa pela Casa Branca. Sua vitória na primária da Carolina do Sul provocou a mais célebre vítima desde o início da disputa eleitoral, há nove meses: o antes favorito Jeb Bush anunciou que está fora do embate, depois de terminar em quarto lugar no Estado em que seu sobrenome é reverenciado.

Trump parece ser imune a qualquer tropeço ou heresia. Na véspera da primária da Carolina do Sul, o papa Francisco afirmou que ele não é cristão, por defender a construção de um muro na fronteira com o México. Talvez mais grave para a ala republicana tradicional, o bilionário acusou o governo do ex-presidente George W. Bush (de seu partido) de mentir para justificar a Guerra do Iraque de 2003. Há poucas dúvidas de que isso ocorreu, mas a teoria costuma ser apresentada pelos opositores democratas.

Com talento único para captar a atenção da mídia, Trump conseguiu manter sua liderança apesar da superficialidade e falta de contorno de suas propostas –ou talvez exatamente por isso. O bilionário se apresenta como um líder paternalista e agressivo, que devolverá aos americanos a glória supostamente perdida. Seu discurso populista-nacionalista promete empregos estáveis, expulsão de imigrantes, supremacia global e rejeição da globalização promovida por tratados de livre comércio. Além do muro concreto na fronteira com o México, ele promete muros virtuais, na forma de tarifas de 45% na importação de produtos chineses.

O desafio de Trump é conseguir ir além dos cerca de 35% que obteve em New Hampshire e na Carolina do Sul. Em um partido fraturado entre vários candidatos, o bilionário pode ter a fatia mais expressiva de votos, mas não possui a maioria. A esperança dos líderes republicanos é que a saída de Bush –e de outros nas próximas semanas- leve os eleitores anti-Trump a se reunir em torno de um candidato que possa desafiá-lo. Esse lugar é disputados pelos senadores de primeiro mandato Marco Rubio e Ted Cruz.

Trump teve 32,5% dos votos na Carolina do Sul, seguido por Rubio, com 22,5%. Cruz obteve 22,3%, em uma região na qual evangélicos vistos como seus eleitores naturais têm peso significativo. O terceiro lugar, ainda que por uma diferença mínima, é um sinal negativo para as possibilidades do candidato em prévias futuras nas quais o voto religioso é menos relevante.

O cenário que emerge dos Estados que realizaram prévias até agora é o de uma corrida de três candidatos no Partido Republicano, com Trump na sólida liderança. No dia 1º de março, 12 Estados realizarão prévias. Se o bilionário vencer a maioria delas -ou todas-, será cada vez mais difícil para a liderança republicana impedir sua nomeação.

 

Tendências: