Trump, o iconoclasta

Cláudia Trevisan

16 de fevereiro de 2016 | 01h50

Em uma disputa na qual candidatos competem pela posição de genuíno outsider, Donald Trump se apresenta como um não-político que se volta contra o que no Brasil chamaríamos de “tudo o que está aí”. Mas sua retórica atingiu o coração do partido pelo qual pretende disputar a presidência dos Estados Unidos. Trump atacou o ex-presidente George W. Bush, o último republicano a ocupar a Casa Branca, e acusou a legenda de ser controlada por grupos de interesse que compram influência com generosas contribuições de campanha a seus candidatos.

O caos que impera no Oriente Médio não deixa dúvida de que a invasão do Iraque comandada por Bush em 2003 foi um erro. Mas ver o candidato que lidera as pesquisas pelo partido acusar o governo do ex-presidente de mentir de maneira deliberada para justificar a guerra é algo que deve provocar convulsões entre os dirigentes republicanos. Trump foi além e responsabilizou Bush pelo atentado de 11 de setembro de 2001, o evento mais traumático da história recente americana. O bilionário afirmou que o irmão de seu adversário Jeb não ouviu a suposta recomendação da CIA de matar Osama Bin Laden, que teria sido apresentada antes do ataque.

A acusação abala um das principais componentes da autoimagem do Partido Republicano: a de que é a mais preparada legenda para defender os Estados Unidos de ameaças externas.

O bilionário também está se revelando um iconoclasta dentro de um partido que tem entre suas bandeiras o fim de qualquer regulação sobre o financiamento eleitoral e que festejou a decisão da Suprema Corte que acabou com limites sobre doações destinadas aos Comitês de Ação Política, conhecidos como Super-PACs.

Na narrativa de Trump, todos os republicanos que disputam com ele a nomeação do partido são comprados por grupos econômicos e não terão independência para confrontá-los caso sejam eleitos. O bilionário financia sua própria eleição e conta com uma ampla cobertura da imprensa americana, alimentada por suas declarações bombásticas. Ele também é ativo no Twitter, onde chamou Jeb de “hipócrita” e disse que o senador Ted Cruz é o maior mentiroso que já encontrou. Senador pelo Texas, Cruz está em segundo lugar nas pesquisas republicanas e também se apresenta como um outsider que confronta o poder estabelecido do partido. Resta saber como a legenda sobreviverá ao fogo amigo de seus candidatos.