Trump perde debate ao não se comprometer com resultado da eleição

Cláudia Trevisan

20 de outubro de 2016 | 04h34

Em um segundo lugar cada vez mais distante nas pesquisas de opinião, Donald Trump precisava de uma vitória incontestável no último debate antes da eleição presidencial para tentar mudar a narrativa de que Hillary Clinton está perto de se tornar a primeira mulher a comandar os EUA. Mas além de não ter uma performance forte o bastante para virar o jogo, ele se encarregou de ofuscar seus bons momentos ao se negar a dizer se reconhecerá o resultado da eleição de novembro.

A afirmação ocupou as manchetes dos jornais e das TVs dos EUA e do restante do mundo e colocou em segundo plano os questionamentos de Trump sobre os e-mails de Hillary ou o funcionamento da Fundação Clinton. “Eu vou ver isso no momento. Eu não estou olhando para isso agora”, respondeu Trump quando perguntado pelo moderador Chris Wallace se aceitará o resultado da disputa.

Quando Wallace observou que a prática é um dos pilares da democracia americana e um dos fatores que garantem a transição pacífica de poder no país, Trump insistiu na evasiva: “O que eu estou dizendo é que eu vou dizer a você (se aceito o resultado) no momento. Eu vou mantê-lo em suspense, ok?”.

Nos dias que antecederam o debate, Trump propagou a teoria de que as eleições de novembro serão manipuladas em favor de Hillary. A afirmação provocou alarme entre democratas e entre dirigentes do Partido Republicano, que governa 31 dos 50 Estados americanos. Nos EUA, as eleições são decentralizadas e administradas pelos governos locais. Ao levantar a suspeição de manipulação do pleito, o republicano está colocando em dúvida a credibilidade de autoridades do seu próprio partido. Em reação às insinuações de Trump, vários integrantes da legenda vieram a público para afirmar que não há nenhum indício de fraude no processo eleitoral americano.

A declaração abriu caminho para um dos mais eficazes ataques de Hillary da noite: o de que Trump usa o argumento da fraude e da manipulação sempre que está em desvantagem. A democrata lembrou que o adversário acusou o Partido Republicano de ter um sistema de escolha “viciado” depois de perder as primárias em Iowa e Wisconsin.  Quando a Universidade Trump foi processada por suspeita de fraude, lembrou, o bilionário colocou em dúvida a isenção do juiz responsável pelo caso. “Houve um momento em que ele não ganhou um Emmy para seu programa de TV por três anos seguidos e começou a twittar que os Emmys eram manipulados contra ele”, afirmou a candidata.

Uma performance desastrosa de Hillary também teria o potencial de virar o jogo eleitoral em favor de Trump, mas isso não ocorreu. A ex-secretária de Estado não repetiu a atuação quase impecável do primeiro embate com o republicano, no dia 26 de setembro, mas não teve tropeços que comprometam sua posição.

Para os candidatos, debates presidenciais servem para convencer eleitores indecisos e levar os que já se decidiram a mudar de posição. Pesquisa da CNN revelou que poucos tiveram suas convicções abaladas pelo que viram em Las Vegas: 87% dos entrevistados disseram que não mudaram seu voto em razão do embate, o que é mais uma notícia ruim para Trump. O republicano está atrás de Hillary em todos as pesquisas recentes, em algumas delas por uma margem de dois dígitos. Estimativa do New York Times com base nos levantamentos aponta para uma probabilidade de 92% de Hillary vencer em novembro.

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