Tsunami provocou incêndio de 5 dias em Kesennuma

Cláudia Trevisan

17 de março de 2011 | 08h18

O fogo ardeu por cinco dias na cidade portuária de Kesennuma e só foi extinto na noite de quarta-feira, deixando um cenário parecido a um imenso ferro-velho de metal retorcido e carros incendiados, que ganha tons surrealistas pela presença de um imenso navio estacionado no meio do entulho.

Marinheiros de barcos que se dedicam à pesca de atum, os homens de Kesennuma estão acostumados às tempestades no mar, mas jamais imaginaram que pudessem ver algo da proporção do tsunami que os atingiu na sexta-feira.

“Esperávamos que um dia algo grande fosse chegar, mas nunca pensamos que fosse ser tão devastador e tão extenso”, disse Hiroshi Sukuzi, um homem na casa dos 60 anos que agora vive com alguns vizinhos em um dos 93 abrigos provisórios criados para receber as 20 mil pessoas que perderam suas casas _o equivalente a mais de um terço da população de 73 mil habitantes.

Os moradores de Kesennuma enfrentaram o terremoto, o tsunami e o incêndio, que se sucederam em uma espaço de pouco mais de uma hora. O fogo começou logo depois de água avançar pela cidade, criando o cenário paradoxal de chamas em meio ao alagamento.

A origem foram os botijões de gás das casas, que foram explodindo um depois do outro. O combustível que vazou dos navios também alimentou o fogo, gerando um incêndio de proporções gigantescas, que os bombeiros não conseguiam extinguir: quando eles tinham sucesso em debelar um foco, um novo surgia em outro lugar.

Ontem, equipes de resgate vasculhavam os escombros em busca de corpos e moradores incrédulos olhavam para o que sobrou de suas casas.

Yoshida, de 74 anos, é um marinheiro aposentado que viajou o mundo em barcos de pesca e estava em Kesennuma há 50 anos, quando o Tsunami do Chile atingiu a cidade. Por isso, sabia que era preciso evacuar as casas rapidamente depois do terremoto.

Junto com outros de sua idade, Yoshida se encaminhava para o refugiou em um local alto quando decidiu voltar, apesar do enorme risco: ele não queria deixar para trás as fotos de família e os tabletes de madeira nos quais estão escritos os nomes de seus pais, utilizados em cerimônias para homenageá-los.

O ex-marinheiro só percebeu que o tsunami havia chegado quando sua casa começou a flutuar. Yoshida subiu para o segundo andar e manteve a calma enquanto a construção era levada pela água. “Eu peguei muita tempestade no mar e sabia que não iria morrer.” A casa foi parcialmente destruída, mas Yoshida sobreviveu e foi resgatado no dia seguinte.

Ontem sua mulher, Yasako Yoshida, enfrentou a parede de entulho que cobre a região onde viviam para ver o que havia sobrado no local onde antes estava sua casa. Resgatou uma pequena planta e uma bolsa com fitas coloridas, que usa para fazer artesanato.

Sentada em seu tatame no abrigo, Hume Ito conta que estava na fábrica de correias de transmissão para navios onde trabalha quando o terremoto ocorreu. Ela imediatamente saiu de carro, pegou os dois filhos na escola e se refugiou no santuário inaugurado no ano passado no alto de uma montanha.

O apartamento onde sua família vivia foi totalmente destruído pelo fogo, que teve origem em um reservatório de combustível. Localizada no porto, a empresa ainda está submersa. “A cidade está totalmente destruída”, disse seu pai, Mikio Ito, 75. “Eu nunca vi nada parecido.”

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