Um abacaxi de US$ 2,4 trilhões

Cláudia Trevisan

18 de janeiro de 2010 | 11h37

Ter US$ 2,4 trilhões em reservas internacionais parece o sonho de qualquer país do mundo, mas na China ele está se transformando em um abacaxi cada vez mais difícil de descascar. Só no ano passado essa montanha de dinheiro aumentou em US$ 453 bilhões, valor que representa quase duas vezes o total das reservas internacionais do Brasil, que estão em US$ 240 bilhões. E tudo indica que esse estoque continuará a crescer em ritmo semelhante neste ano, alimentado pelo superávit comercial, o investimento estrangeiro direto e a entrada de capital especulativo que aposta na valorização da moeda chinesa, o yuan, em relação ao dólar.
O patamar atual das reservas chinesas está muito além do que o país precisa para se defender de ataques especulativos ou enfrentar uma improvável crise em sua balança de pagamentos. Em outras palavras, ter um volume tão grande de moeda estrangeira no banco central se tornou improdutivo. Mas Pequim parece não ter outra alternativa que continuar a acumular reservas. A principal razão para isso é o regime de câmbio, que mantém a cotação do yuan em relação ao dólar inalterada desde meados de 2008. Para evitar que a moeda local se valorize, o banco central é obrigado a comprar os dólares, euros e ienes que entram no país, em um processo que aumenta a pilha de reservas estrangeiras.
Como qualquer pessoa que tem dinheiro em caixa, a China tem de resolver onde investir esses recursos e a opção mais óbvia são os títulos do Tesouro dos Estados Unidos, onde estão pelo menos US$ 800 bilhões das reservas do país asiático _há mais US$ 800 bilhões aplicados em outros ativos denominados em dólares. O problema é que há um risco considerável de a moeda norte-americana se desvalorizar em consequência do aumento de gastos do governo, do consequente déficit público e da eventual inflação, o que reduziria o tamanho das reservas chinesas em outras moedas.
Mas se deixar de comprar títulos do Tesouro dos EUA ou de investir em dólares a China pode provocar justamente o mesmo cenário: precipitar a desvalorização da moeda norte-americana.

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