Uma analfabeta em Pequim

Uma analfabeta em Pequim

Cláudia Trevisan

03 de março de 2008 | 07h15

Eu havia me esquecido como é exaustivo viver em um país no qual se é um absoluto analfabeto. Mais ainda quando esse país é o mais populoso do mundo e experimenta o início de uma explosão de consumo. Os mais corriqueiros atos do dia-a-dia exigem estratégia, planejamento prévio, uma boa dose de paciência mútua e um intérprete ao alcance do celular para os momentos de emergência. E emergência na China pode ser um conceito beeeeeem amplo. Só nesta manhã, a primeira no meu apartamento, já recorri à minha intérprete umas quatro vezes, o que dá uma média de um pedido de socorro por hora. O primeiro, logo cedo, quando uma mulher tocou a campainha e começou a falar chinês, sem que eu tivesse a menor idéia do que se tratava. O procedimento nesses casos é sempre o mesmo: ligo para minha intérprete do celular, entrego o aparelho para a pessoa que está à minha frente, elas conversam, o telefone volta para minha mão e recebo a explicação do que está acontecendo _no caso, era a cobrança pela instalação do serviço de internet. Uma conversa que seria banal se transforma em uma teleconferência com tradução quase-simultânea.
Poucas horas depois, recebo a entrega das compras que fiz ontem na IKEA, a rede sueca de móveis e decoração que é um sucesso estrondoso na China. Três funcionários começam a montar os móveis até que um deles me diz algo em chinês que soa como o anúncio de que eu tenho um problema. A única coisa que consigo entender é que eu precisaria de três exemplares de um determinado item, mas só tenho dois. Novo telefonema para Wendy, minha intérprete, e nova teleconferência. O item que falta é um dos pés da mesa e sou informada de que não paguei por ele, o que me parece quase surrealista, já que comprei a mesa toda e não teria razão para excluir uma das pernas. Depois de novo telefonema para Wendy e um telefonema do funcionário para IKEA, recebo a promessa de que a perna que falta será entregue amanhã. Ufa!
As primeiras idas ao supermercado também demandam um tempo enorme, destinado a entender a geografia das prateleiras. Na sessão de produtos de limpeza, eu me sinto uma arqueóloga encarregada de decifrar sinais enigmáticos. Aquela embalagem transparente é de detergente, limpador de vidros, lustrador de prataria ou nenhuma das opções anteriores? A mesma angústia se repete diante das bolachas. Qual é salgada? Qual é doce? Qual tem recheio? Escolhas corriqueiras se transformam em verdadeiros dilemas. Encontrar os produtos é uma tarefa solitária e não dá para perguntar em inglês ao funcionário “Por favor, onde eu encontro sacos de lixo?”, ainda que você esteja no Wal-Mart, outro caso de sucesso na China. Depois de duas detalhadas inspeções na sessão de produtos de limpeza eu desisti da busca e me rendi ao fato de que terei que voltar ao Wal-Mart com minha intérprete, a quem poderei fazer todas as perguntas, por mais banais que sejam.
PS: A sensação de exaustão foi agravada pela longuíssima viagem à China, ampliada pelo cancelamento de um vôo e atraso de quatro horas em outro. Ao todo, foram 60 horas entre meu primeiro check-in no aeroporto de Cumbica até a aterrissagem no aeroporto de Pequim _mais que o dobro das já exaustivas 28 horas previstas. O primeiro vôo foi cancelado quando todos os passageiros estavam embarcados. Enquanto o avião começava a se movimentar, eu dormi, nocauteada por um Stilnox. Quando acordei, era a única passageira a bordo, surpresa com a rapidez do vôo e a eficácia do Stilnox. Mas logo fui informada de que ainda estava em Cumbica e que o vôo fora cancelado porque o piloto havia passado mal.
Produtos de limpeza no Wal-Mart
Corredor do Wal-Mart em Pequim

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