Vozes dos sobreviventes: Kumagi Hiro, 83

Vozes dos sobreviventes: Kumagi Hiro, 83

Cláudia Trevisan

22 de março de 2011 | 09h25

Kumagi Hiro, 83, vivia em Kesennuma

Kumagi Hiro, 83, é uma ótima contadora de histórias e a descrição do que ela viveu nas 24 horas que se seguiram ao tsunami no Japão parece o roteiro de um filme catástrofe hollywoodiano, com explosões, fuga e resgate espetacular.

Dona de uma pequena pousada para pescadores à beira mar, Kumagi tinha acabado de almoçar quando sentiu o mais forte terremoto de sua vida. Ela e a filha, Sachiro, correram para o carro na esperança de chegar a um lugar alto antes que as ondas do esperado tsunami inundassem a cidade.

As ruas estavam tomadas por outros carros também em fuga e as duas perceberam que não conseguiriam escapar a tempo. Como muitos outros moradores de Kesennuma, elas abandonaram o carro na rua e correram.

Mãe e filha conseguiram entrar em um dos poucos edifícios altos da cidade _uma fábrica de refrigeração de peixe_ onde outras 19 pessoas buscaram abrigo. Quando o tsunami acabou, o prédio foi envolto por um cenário apocalíptico, com incêndios no combustível que vazou dos navios e se misturou com o mar. “Eu vi uma mulher na água, gritando por ajuda, mas não pude fazer nada.”

Logo começaram as explosões dos botijões de gás que provocaram novas labaredas. “Estávamos cercados de água e fogo e as explosões pareciam fogos de artifício. Eu achei que estivesse morrendo”, contou Kumagi ao Estado ontem.

O frio dentro do lugar era insuportável e não havia banheiro, comida ou água. O primeiro problema foi resolvido com o uso de baldes que estavam no local. Mas os outros dois não tiveram solução. Kumagi e os demais ficaram sem comer nem beber.

Quando amanheceu, eles puderam ver a devastação provocada pelo tsunami e o incêndio, que ainda continuava em vários locais. Grande parte da cidade simplesmente deixou de existir, transformada em uma interminável pilha de entulho e carros.

Não havia como sair do prédio e Kumagi e os companheiros começaram a acenar toalhas para os helicópteros que sobrevoavam a cidade. Só às 17h30 um deles parou sobre o local e começou a içar os sobreviventes, quando já estava totalmente escuro.

Kumagi e a filha foram levadas a um abrigo perto do aeroporto de Iwate, onde à noite viram na TV as cenas que haviam protagonizado, como se estivessem assistindo a um filme de ficção. “Ficamos felizes por estarmos vivas.”

Desde segunda-feira, mãe e filha estão em um abrigo de Morioka, capital de Iwate, uma das províncias mais devastadas pelo tsunami. Matsugo Kuramoto, que administra o local, diz que as condições são em geral melhores que as dos locais para refugiados nas áreas afetadas, na costa.

Em Morioka há energia, aquecimento e água, o que falta em muitos outros lugares. O abrigo também pode servir três refeições por dia, o que também não é a regra nas regiões mais castigadas pelo tsunami.

A vida de Kumagi e Sachiro está em suspenso, assim como a dos quase 500 mil japoneses espalhados por abrigos na costa leste do país. O tsunami destruiu a casa e a pousada que Kumagi tinha havia 44 anos. As duas perderam tudo o que tinham e não têm ideia de quanto tempo viverão em refúgios provisórios.

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