A eleição no sertão do Seridó
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A eleição no sertão do Seridó

denisechrispim

04 de outubro de 2014 | 17h56

Desde maio não cai uma gota de água em Currais Novos, no sertão do Seridó, Rio Grande do Norte. A última chuva foi boa, suficiente para aumentar em 10% a capacidade do açude Dourado e para aliviar a exaustão da represa Gargalheiras. Henrique Eduardo Alves (PMDB), presidente da Câmara dos Deputados e candidato de uma coalizão de 17 partidos ao governo do Estado, moveu-se em vão em favor da construção de uma adutora para aliviar os 44 mil habitantes de Currais Novos  e os 11 mil da vizinha Acari. Mas a obra chegará tarde demais. Seu rival Robinson Faria (PSD) passou no dia 3 pela região, mas não entregou nenhuma promessa de alívio.

 

Se tudo der certo, a adutora ficará pronta somente em setembro de 2015. Mas, se não chover até março, estaremos em calamidade”, explicou José Eudes Medeiros, gestor da Companhia de Água e Esgoto do RN. “A barragem de Oiticica, que será preenchida com a vazão do complexo Mãe D´Água, da Paraíba, não entra nos cálculos emergenciais. Está seguindo o seu cronograma e deve ficar pronta apenas em agosto do ano que vem.”

 

Alves move-se desde fevereiro passado em favor da construção dessa adutora, que traria alívio a sua principal base eleitoral no sertão do Seridó. Ele apresentou o projeto da obra ao ministro da Integração Regional, Francisco Teixeira, em agosto. Em comício em Currais Novos, em 5 de setembro, anunciou que “a população desta cidade não irá mais sofrer com a falta de água”. “Venho hoje a Currais Novos anunciar que o sonho da construção da adutora agora é uma realidade. Lutei muito em Brasília e, agora, sei que está próximo”, declarou.

 

Dez dias depois, Alves reuniu-se na cidade com o ministro da Previdência Social, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), a governadora do Estado, Rosalba Ciarlini (DEM) e o prefeito Vilton Cunha (PR). O resultado foi a abertura de licitação para a obra emergencial em 15 de setembro. Para os moradores de Currais Novos, porém, isso não passou de um gesto político.

 

As eleições encontraram a população da cidade, a 186 quilômetros de Natal, angustiada com o racionamento de água, que chega em suas torneiras apenas um dia por semana. As autoridades não escapam das mesmas porções reduzidas. O próprio gestor da Caern diz tomar banho de bacia e aproveitar a água restante para a descarga. Segundo Medeiros, a represa Gargalheiras dispõe de 6% de sua capacidade de armazenamento, de 45 milhões de metros cúbicos. O volume morto do açude Dourado começou a ser bombeado e dará alívio a Currais Novos por mais dez dias.

 

Os nossos reservatórios estão como o da Cantareira”, comparou. “O Seridó nunca atravessou uma seca como esta. Vamos ter de racionar mais: água na torneira só uma vez a cada dez dias.”

 

A situação crítica provoca desapontamento nos eleitores. “Não voto nem para governador nem para presidente. Os candidatos não fizeram nada por Seridó”, afirmou Osvaldo Miguel Alves, vendedor de água potável igualmente sujeito ao racionamento. “Desde que existe o Brasil há seca no Seridó. O prefeito prometeu resolver o assunto em três meses. Qualquer um sabe que isso é impossível”, disse a professora Célia Maria da Silva, moradora na comunidade de pescadores de Gargalheiras.

 

O principal rival de Alves na eleição para o governo do RN, Robinson Faria (PSD), fez carreata por municípios do Seridó no dia 3, entre os quais Currais Novos. Mas carreatas impedem o contato direto entre eleitores e candidatos. No Estado, Alves tem 40% das intenções de voto, segundo a última pesquisa do Ibope, divulgada no dia 3, mas sua rejeição é alta, em torno de 37%. Faria tem 33%. Dos 2,3 milhões de eleitores do RN, 6% estão indecisos e, em total repúdio aos concorrentes, 15% diz votar branco ou nulo.

 

A seca trouxe nova crise para o município, que tenta dar impulso a uma nova onda de investimentos na exploração de ouro e scheelita. O negócio de Osvaldo Alves é o que mais prospera na cidade, onde o comércio fecha para o almoço. Ele abastece toda manhã dois tambores no chafariz São Luís, reservatório de Currais Novos abastecido por caminhões-pipa vindos de Natal,  e sai pela cidade em seu caminhão, tocando um sino e esperando pelos moradores com baldes e latas.

 

Somente essa água pode ser bebida e usada para cozinhar alimentos. A que sai das torneiras é considerada podre, pela concentração alta de minerais. Osvaldo Alves paga R$ 27 por 1.000 litros e vende o galão (3,8 litros) por R$ 2. São R$ 499 de lucro líquido. Ainda emprega um ajudante. Como ele, há cerca de 60 vendedores de água em Currais Novos. “Estão me pressionando para eu me registrar como microempresário”, afirmou.

 

O pescador Marco Antônio da Silva, marido de Célia, tem bem menos sorte. Desde o final de julho, parou de pescar camarões na represa Gargalheiras e perdeu a renda média de R$ 480 por mês com a venda de 40 quilos de camarões sem casca. Célia continua a dar aulas em uma escola estadual e recebe R$ 2.000 mensais. Na vizinhança, os pequenos restaurantes, lojas e pousadas fecharam as portas. Não há mais turistas atraídos pela represa quase seca.

 

O casal diz não votar em Henrique Eduardo Alves para o governo do Estado. Prefere Faria, por “não estar metido em escândalos”. Alves foi mencionado pelo ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa como um dos beneficiários do esquema de propinas da estatal. Para presidente, Célia e Marco Antonio votam pela reeleição da presidente Dilma Rousseff. Eles têm duas filhas no ensino médio, mas dispensam o Bolsa Família. “Tem quem precise mais do que nós”, disse a professora.

 

Com a seca, a dona de casa Luzinete da Silva recebeu a missão de armazenar nas duas cisternas de seu quintal a água potável distribuída pelo Exército, gratuitamente, na região do Seridó. O volume é dividido entre todos os moradores da Comunidade Maniçoba, a mais pobre de Currais Novos. São 20 litros por pessoa. “É um abacaxi, uma confusão”, resmunga. Luzinete cria galinhas e um garrote “enjeitado”, que pretende trocar por uma vaca. Os porquinhos da índia se multiplicam em seu quintal. Mas são de estimação: ela não os dá nem vende.

 

Luzinete depende do Bolsa Família, R$ 187 por mês recebidos graças a sua filha, estudante do ensino médio. O marido faz bicos como motorista, dois filhos trabalham em uma olaria e pagam pensões alimentícias, o tio deficiente mental não conseguiu se aposentar. “Ave Maria! O Bolsa Família ajuda muito. Sei que não vai acabar, mas voto em Dilma porque gosto dela. Foi muito boa para os pobres”, afirmou a dona de casa, que tem acompanhado todos os debates. Para o governo do RN, seu voto vai para Henrique Eduardo Alves. “Conseguimos energia elétrica aqui porque ele ajudou. Vi o último debate (dia 30) e gostei dele”, afirmou.

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