A Líbia, seus extremistas e a violência sem limites
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A Líbia, seus extremistas e a violência sem limites

denisechrispim

12 de setembro de 2012 | 18h56

A violência na Líbia pós-Kadafi não é novidade. O fato novo está na ousadia de um ataque a uma representação dos Estados Unidos e no assassinato de seu embaixador, Christopher Stevens, um ativo negociador com as forças rebeldes líbias no ano passado e “amigo” dos líderes locais da Irmandade Muçulmana. As investigações ainda preliminares não permitem esclarecer por que Stevens foi o alvo do ataque, supostamente planejado. “É especialmente trágico que Chris Stevens tenha morrido em Benghazi porque essa é a cidade que ele ajudou a salvar”, afirmou o presidente Barack Obama, no Jardim das Rosas da Casa Branca.

            Especialistas americanos insistem que a escalada de violência na Líbia não tem sido coibida de forma apropriada. Segundo Brian Katulis, especialista em Oriente Médio do National Security Network´s (NSN),  os ataques têm sido organizados por grupos extremistas armados, com ideologia próxima à da Al Qaeda, e capacitados para atingir alvos americanos. O diretor do Human Rights Watch em Washington, Tom Malinowaski, concorda com Katulis e considera indispensável que o governo líbio venha a garantir a legitimidade da democracia e da ordem legal nascentes.

“Estamos o preço por essa situação de poder dos grupos armados, que se recusam a depositar suas armas”, afirmou Malinowski durante uma conference call promovida pelo NSN. “Confrontar esses grupos será essencial para a continuidade da revolução líbia e para boa relação com os EUA”, completou.

Ed Husain, analista de Oriente Médio do Council on Foreign Relations (CFR), afirmou não ter dúvidas da presença de simpatizantes da Al-Qaeda entre os responsáveis pelo ataque de ontem e de haver relação com o 11 de Setembro. A Irmandade Islâmica, afirmou ele, falhou na sua condenação aos episódios anteriores de violência capitaneados pelas milícias armadas líbias. Segundo Vijay Prashad, autor de “Arab Spring, Lybian Winter” e diretor de Estudos Internacionais do Trinity College, de Hartford, a ação militar do Ocidente na Líbia, no ano passado, não foi capaz de suavizar o ressentimento de parte dos líbios, especialmente dos que combateram Muamar Kadafi, contra os EUA e o Reino Unido.

Prashad listou cinco atos de violência cometidos por esses grupos desde o início deste ano. Em janeiro, uma multidão invadiu o quartel-general do Conselho Nacional de Transição. Em abril, uma bomba atingiu o comboio da Missão das Nações Unidas na Líbia e outra explodiu em um tribunal. Em maio, um foguete foi disparado contra a sede local da Cruz Vermelha. Em julho, o comboio que transportava o cônsul britânico foi atacado. No mês passado, uma bomba caseira explodiu em frente do consulado americano.

Não há ainda certeza se o ataque ao Consulado americano em Benghazi foi planejado ou o resultado de um protesto levado às últimas consequências – supostamente, contra o filme “Innocence of Muslims”. A ex-embaixadora dos EUA no Paquistão e atual presidente do NSN, Wendy Chamberlain, acredita ser cedo demais para uma conclusão. Para Isobel Coleman, analista sênior do Council on Foreign Relations, esse caso de violência foi “bem planejado e armado”. Conforme argumentou, tratou-se de incidente bastante diferente do ocorrido, na mesma terça-feira, na embaixada dos EUA no Cairo, quando manifestantes escalaram o muro, tomaram a bandeira americana e a incendiaram em protesto contra o filme.

 “Isso mostra quão perigosa é a situação de hoje na Líbia”, insistiu Isobel. O quadro, completou ela, gera preocupação sobre ataques adicionais, respondida pela Casa Branca com o envio de cerca de 40 marines para reforçar a segurança das representações americanas no país. Também resulta no envio de drones (aviões não tripulados) e em uma maior participação dos EUA no trabalho de inteligência, necessário para se elucidar o episódio.

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