Abismo abaixo
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Abismo abaixo

denisechrispim

31 de dezembro de 2012 | 20h29

Washington, 31 de dezembro de 2012.

Caríssimos,

Sinto dizer, mas os Estados Unidos caíram no abismo fiscal. Foi pouco depois das 16h em Washington, quando a Câmara dos Deputados anunciou que não haveria mais votação em seu plenário em 31 de dezembro, mesmo tendo um acordo fechado e aprovado pelo Senado. A rigor, a Câmara ainda pode trabalhar amanhã, dia de feriado bancário e nas bolsas de valores. É o que promete. Mas o resultado de sua lida no primeiro dia do ano é incerto. Os deputados podem aprovar o acordo – ainda não concluído no momento em que escrevo esta missiva. Podem também rejeitá-lo.

A ideia de haver uma última chance de se evitar o abismo fiscal, ainda que remota, é alentadora. Mesmo que o acordo saia e seja aprovado pelas duas casas do Congresso e que, portanto, o risco de uma recessão nos EUA em 2013 seja afastado, a irresponsabilidade embutida no processo de negociação não deixa de causar surpresa, revolta e irritação. A Casa Branca e os republicanos do Congresso tiveram um ano todo para buscar o consenso. O tema foi debatido exaustivamente durante a campanha presidencial. E, depois de conhecida a reeleição de Obama, na noite de 6 de novembro, ainda havia quase dois meses para os dois lados se acertarem.

Não se tratava de um tema novo. Ambos os lados já haviam falhado no início de agosto de 2011, quando fecharam um acordo fiscal paliativo para o curto prazo e empurraram com a barriga o plano de ajuste de longo prazo nas contas do governo federal. O resultado foi observado com perplexidade naquela ocasião. A polarização dos dois partidos foi exaustivamente analisada e debatida. E os EUA, pela primeira vez na História, tiveram sua avaliação de risco de crédito rebaixada. Desta vez, o processo não foi diferente.

Chama a atenção a arrogância e inabilidade do presidente Barack Obama ao lidar com a questão. Não me refiro, aqui, à sua defesa da retomada da alíquota original (mais alta) de Imposto de Renda para os americanos com maior renda anual. Seus argumentos sobre o tema me parecem totalmente corretos e justos. Mas sua insistência por muitas semanas em manter-se a proposta de atingir os contribuintes com renda superior a US$ 250 mil travou o processo de negociação por um tempo precioso demais.

Obama valeu-se do argumento de ter sido reeleito por causa, especialmente, dessa sua proposta. Não poderia retroceder, em respeito a seus eleitores. Desconsiderou os fatos de ter sido eleito, pelo voto popular, por uma margem de 2,8% e de os republicanos terem mantido a maioria na Câmara na mesma eleição com argumento oposto – de não permitir elevação de tributos para ninguém, principalmente para os contribuintes da classe alta. Além disso, os republicanos mais radicais já tinham sequestrado a discussão do acordo fiscal em julho de 2011. Obama sabia com quem estava tratando, conhecia seus métodos, desconfiava de suas intenções. Mas não aprendeu a lidar com eles.

Chama a atenção igualmente como a ala mais moderada do partido republicano acomodou-se à agenda do Tea Party. O próprio presidente da Câmara, John Boehner, foi refém desses radicais duas vezes. Em julho, fechara um acordo com Obama antes do prazo final e, surpreendentemente, recuara em seguida por pressão dessa facção. No último dia 20, tentara apresentar uma proposta alternativa de acordo fiscal no plenário da casa. O Tea Party discordou da retomada da alíquota de IR para os americanos com renda maior do que US$ 1 milhão, presente no texto, e abortou a votação.

Obama inicia seu segundo mandato em 21 de janeiro próximo. O Congresso, com pequenas alterações, terá a mesma estrutura nos próximos dois anos: maioria democrata no Senado, maioria republicana na Câmara. Se a discussão do acordo fiscal for o parâmetro para a relação entre Executivo e Legislativo, então restar dizer: Deus salve a América.

Até o (feliz) ano que vem.

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