Chávez morto, Chávez vivo
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Chávez morto, Chávez vivo

denisechrispim

02 de abril de 2014 | 21h33

O olhar de Hugo Chávez está por todos os cantos de Caracas. E não é alucinação. Os edifícios públicos, mesmo o da Assembleia Nacional, casa supostamente de múltiplos ideais e interesses, trazem o desenho dos seus olhos pequenos no topo. Sua assinatura está gravada nos edifícios da Missão Moradias, o programa chavista de moradia popular, construídos nas regiões centrais da capital venezuelana. Na Casa Amarela, a sede da chancelaria venezuelana, seu rosto está tão presente quanto o do cultuado libertador Simon Bolívar.

Chávez é celebrado, idolatrado, endeusado e copiado – pelo menos por uma parte da metade dos bolivarianos, sobretudo a parcela que governa o país – como se vivo estivesse. A oposição venezuelana é obrigada a tolerar seus olhos onipresentes em Caracas. A referência ao ex-presidente se dá em termos exuberantes, como os usados na Coreia do Norte. Hugo Chávez é “o presidente supremo e eterno”. Seus discursos são repetidos exaustivamente pelas televisões e rádios estatais, assim como as filmagens dele cantando o hino nacional e músicas folclóricas.

Quase 13 meses depois de sua morte, o governo venezuelano precisa de Chávez e explora sua imagem sem piedade. O Quartel da Montanha, de onde o tenente-coronel saiu em 2 de fevereiro de 1992 no comando de um golpe de Estado contra o então presidente Carlos Andrés Pérez, transformou-se no seu panteão. O golpe fracassou, felizmente, Chávez passou dois anos na prisão e quatro anos depois venceu a eleição presidencial. O dia 2 de fevereiro virou feriado nacional no país – talvez o único no mundo a celebrar uma tentativa de golpe de Estado.

O quartel é aberto para visitas guiadas. O segundo-sargento Nestor Jimenez adota o estilo do “comandante supremo e eterno” ao conduzirem grupo de venezuelanos por salas onde estão preservados seus objetos pessoais – as luvas de beisebol, a canequinha de café de ágata, a escova de cabelo, os uniformes militares – e muitas fotos. Para na frente de um mural fotográfico de um comício de dezembro de 2010. “Uma chuva de água benta por São Francisco de Assis caiu sobre o comandante e seu povo. Logo depois, o céu se abriu”, comenta. Pobre São Francisco.

Os venezuelanos que visitam o panteão se sentem emocionadas. Obviamente, não se trata de local de visitas de insatisfeitos e opositores ao regime por ele criado. Elva Amaya, de 89 anos, toca na sepultura enquanto sua cadeira de rodas era empurrada por um soldado. Ela viera de San Cristóbal para consultas médicas e ficou em Caracas, por causa dos protestos violentos em sua cidade. “Era um homem muito bonito. Eu me encontrei duas vezes com ele”, lembra Elva. “Quando vejo a imagem de Chávez, eu choro. É muito forte pra mim”, disse a filha de Elva, Coromoto Cacique, funcionária pública aposentada.

Você não sentiu uma vibração forte quando passou pela sepultura? Como me emocionei! Ele era como um pai, como uma pessoa da família”, disse ex-operário da General Motors José Suarez, de 75 anos, que viera de Valencia. Encontrei-me com Chávez, como jornalista, inúmeras vezes desde 1998, quando ele concorria à eleição da qual saiu-se vitorioso. Não senti vibração nenhuma.

Às 16h25 de todo santo dia, o canhão do quartel é disparado, para lembrar o momento em que Chávez deixou a prisão, em 26 de março de 1994. Essa data foi celebrada neste ano com uma grande marcha convocada pelo presidente Nicolás Maduro, muito oportuna para mostrar a popularidade de seu governo aos chanceleres da Unasul presentes em Caracas.

Maduro se diz “filho de político de Chávez”. Mas, com cuidado, extraiu a imagem de seu “pai” do fundo de seus discursos televisionados. Preferiu quadros de Bolívar, como fazia seu antecessor. Ao falar, adota os trejeitos de seu antecessor – as pausas para criar suspense, as conversas paralelas com um ou outro, as lembranças, o tom de voz, a referência a outros lugares do país – e recorda suas passagens com Chávez, em discursos que podem durar horas.

Curioso é o fato de alguns oposicionistas, cientes ou não, seguirem a mesma linha. A mensagem de Smolansky, um dos dirigentes do partido de oposição Vontade Popular, está 180 graus distante da do líder bolivariano. Mas, com os olhos fechados, uma pessoa sem familiaridade nenhuma com o espanhol poderia dizer que é o próprio Chávez falando. É surpreendente.

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