Dias difíceis para ditadores e democratas
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Dias difíceis para ditadores e democratas

denisechrispim

13 de março de 2014 | 12h42

Do Ocidente à Ásia, das grandes cooperações às novatas do ramo tecnológico, dos palácios às ruas, dos homens às mulheres, o poder está mudando de mãos em todos os setores e já não é robusto como antes. Tornou-se mais fácil de alcançá-lo, porém mais difícil – até para ditadores – mantê-lo e usá-lo.  Degradou-se para o bem – a queda de tiranos – e para o mal – a crise de governabilidade nos Estados Unidos – desde o final do século 20. O mundo está desafiado a inovar o poder, reflete o venezuelano Moisés Naím, observador dos cenários político e internacional radicado em Washington, “O Fim do Poder” (LeYa), em seu nono livro.

 

A versão em português foi lançada neste mês no Brasil e traz uma minipropaganda de Bill Clinton na capa. “O Fim do Poder irá mudar a forma como você lê as notícias, como pensa sobre a política e como olha para o mundo”, declara o ex-presidente dos Estados Unidos. O olhar de Naím não se restringe ao universo político dos últimos 30 anos. Atinge também o setor empresarial, a Igreja, o comando militar, os partidos e os meios de comunicação.

 

“De Chicago a Milão e de Nova Délhi a Brasília, os chefes das máquinas políticas irão prontamente admitir que têm bem menor capacidade de tomar decisões unilaterais do que seus predecessores davam como certas”, escreveu. “Ninguém tem poder suficiente para fazer o que sabe que é preciso fazer.”

 

Naím contradiz a visão dominante de que o poder, político e empresarial, está cada vez mais concentrado e vigoroso. Em sua abordagem, o fato de Vladimir Putin ter-se mantido à sombra do poder entre 2008 e 2012 e retornado à presidência da Rússia não significa que ele seja hoje tão poderoso como era antes. A queda de Mohamed Morsi, primeiro presidente eleito no Egito desde 1981, deu a Naím um exemplo da dificuldade de preservação do poder quando os fins do governante não coincidem com a vontade popular. Sucessor do ditador Hosni Mubarak, derrubado pela primavera egípcia em 2011, Morsi governou por apenas 13 meses e, ao por tentar impor um Estado de caráter islâmico, sucumbiu a nova onda de protestos e a um golpe militar.

 

“O mundo tornou-se mais inseguro para os tiranos”, resumiu, em palestra no Instituto Fernando Henrique Cardoso, no dia 10.

 

Como constatou, havia 69 democracias no mundo em 1990. Hoje, há 188, e a metade da população mundial vive sob a conduta de governantes eleitos. No entanto, as amplas margens de vitória eleitoral desapareceram e agora forçam os governantes, como a alemã Angela Merkel, a compor-se com a oposição. Os governos subnacionais tornaram-se mais independentes, enquanto os tribunais demostram maior ímpeto e politização, como no Brasil.

 

Os meios de comunicação atuam de forma mais autônoma, e informações antes protegidas pela confidencialidade podem acabar expostas ao grande público. Foi o que aconteceu com as divulgações de documentos de segurança nacional dos EUA por Edward Senoide e pelo WikiLeaks nos últimos três anos. A população, por sua vez, se sente motivada a expressar nas ruas sua frustração, seja nos “Occupy”, nas primaveras ou nos protestos contra o aumento das tarifas de transporte público.

 

Como resultado, os governantes se veem menos capazes de entregar aos eleitores suas promessas de campanha. “O poder político hoje é como um Guliver derrubado e amarrado por inúmeros fios”, afirmou Naím na palestra.

 

Os vetos dos setores poderosos à emergência de novos atores estão cedendo, em sua avaliação, e não apenas os inovadores estão avançando na seara do poder. Avançam também extremistas, fanáticos e separatistas, que põem em risco a ordem institucional. Cabe aos partidos políticos inovar para corresponder aos anseios dos eleitores, atrair novas fileiras e anular os riscos para a democracia, receita Naím. Esgotadas, as legendas devem examinar o formato menos hierárquico e mais acessível e o idealismo das organizações não-governamentais.

 

“O partido não é mais a casa de quem quer mudar o mundo. Desde a queda do muro de Berlim (1989), eles têm sido percebidos como corruptos, oportunistas”, afirmou. “Por isso, é nos partidos que tem de começar inovação política.”

 

 Essas transformações, segundo Naím, se devem a três “revoluções” iniciadas na segunda metade do século 20. A primeira, do “mais”, diz respeito ao aumento da população mundial e a seu maior acesso à saúde, à educação, à informação e aos  bens. A da “mobilidade” refere-se à movimentação intensa das pessoas, com menor custo. A “revolução de mentalidade” é a mudança no modo de pensar, nas expectativas e nas aspirações.

 

O caráter amplo dessas “revoluções” as faz impactantes em outras searas.  A renúncia do Papa Bento 16, ao ser confrontado com a crise do Banco do Vaticano, os escândalos sexuais e a redução do número de fieis, expressou a fragilização do poder de Roma. A falência da Kodak, gigante do setor fotográfico ao longo do século 20, deu-se ao mesmo tempo em que a Instagram, criada em 2010 com apenas 13 funcionários, ascendia. Campeã da siderurgia mundial, a europeia Arcelor foi comprada em 2006 pela indiana Mittal Steel.

 

Naím não teve a pretensão, em seu livro, de construir um tratado de Ciência Política. Mas se vale de suas páginas para confrontar a versão dominante da realidade com uma visão que, senão nova, está bastante ancorada em fatos recentes. Para ele, a compreensão do processo de degradação do poder é o primeiro passo para o mundo enfrentar questões complexas – da mudança climática ao terrorismo e crimes cibernéticos – com maior participação social. Sem essa compreensão, avisa, o risco é de perigosa paralisia no que há de positivo nessa inevitável transformação.

Comentem.

Tendências: