Duas Américas
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Duas Américas

denisechrispim

10 de setembro de 2012 | 14h07

        Há tempos Barack Obama vem dizendo ser a eleição de 2012 a escolha entre dois modelos diferentes de   visão sobre os desafios dos Estados Unidos. Sua observação não poderia ter sido mais evidente do que foi nas duas últimas semanas, quando os partidos Democrata e Republicano fizeram suas convenções nacionais. As plataformas das duas legendas e os discursos de suas principais estrelas estamparam a polarização dos princípios político-ideológicos. Mostraram haver claramente duas Américas.

            A América vista em Tampa há duas semanas assusta a quem veio de países abaixo do Rio Grande e do outro lado do Atlântico pelo radicalismo de direita. Não só pelos conceitos reafirmados: o do ajuste fiscal severo, porém com alívio aos americanos mais ricos, da proibição do aborto e do casamento entre homossexuais, da guerra do Afeganistão sem um fim definido, do repúdio à reforma da Saúde de 2010, da retomada de Moscou como principal inimigo de Washington.

A América vista em Charlotte foi tolerante com Obama, como muitos dos democratas ausentes na convenção não têm sido. Sua missão na Casa Branca foi prejudicada, assim entendeu a audiência, pela impossibilidade de diálogo e de compromisso com a direita radical republicana. O projeto de “mudança” tem de prosseguir, com a adoção integral da reforma da Saúde, o investimento público em infra-estrutura, educação e inovação e o ajuste fiscal assegurado pelo fim de benefícios fiscais aos setores mais favorecidos e pela redução dos gastos militares.

Não apenas os valores e princípios polarizados impressionaram os que assistiram às duas convenções. Assustadora foi a massa de americanos brancos presente em Tampa, na sua maioria acima dos 50 anos. Os negros foram raríssimos, e os latinos, mais presentes no palco do que na platéia. Parecia a América de mais de 40 anos atrás. Em Charlotte, via-se o reflexo da diversidade étnica e cultural dos Estados Unidos atual.

            Do lado de fora do ginásio Tampa Bay Times Forum, com o policiamento redobrado para impedir manifestações como as de 2008, apenas meia dúzia de vendedores de bottons e vários seguidores de Ron Paul, o candidato derrotado nas primárias do partido e defensor de ideais próximos ao anarquismo, em protesto contra a convenção. A paisagem foi outra atrás do cordão de isolamento do Convention Center de Charlotte. Uma verdadeira feira livre de camisetas, bottons, fotografias, bonecos, cortadores de unha – tudo com a cara de Obama – formou-se na calçada. A duas quadras, um busto feito em areia de praia ilustrava a simpatia ao candidato à reeleição. Charlotte parecia em festa. Tampa, em funeral.

            Dentro dos prédios, durante as sessões de cinco horas de discursos, a organização democrata mostrou-se mais eficiente do que a republicana. O discurso de Obama pôde ser enxuto e restringir-se ao pedido ao eleitor de mais quatro anos de governo, para consolidar seu projeto de recuperação da economia e de criação de empregos com responsabilidade fiscal. Bill Clinton, Joe Biden e Michelle, a primeira-dama, prepararam o terreno ao presidente com seus próprios discursos. A ex-governadora de Michigan Jennifer Granholm e o atual governador de Montana, Brian Schweitzer, levantaram e motivaram a plateia antes de Obama entrar no palco e fazer uma cesta de três pontos.

            Houve preocupação para que as três noites em Tampa – quatro, originalmente – culminassem com a fala de Mitt Romney, o candidato republicano. Ann, sua mulher há 43 anos, descreveu um marido de carne e osso para a plateia. Paul Ryan, seu companheiro de chapa, reiterou o compromisso de ambos com os princípios do Tea Party. Mas Romney não pôde arrematar. A presença de Clint Eastwood no palco, pouco antes do candidato, revelou-se desastrosa. E os dados falaciosos mencionados por Ryan e outras estrelas turvaram a mensagem da convenção.

            Ainda faltam nove semanas e dois debates presidenciais para o jogo ser definido, em 6 de novembro. Os cálculos baseados em pesquisas de opinião nos Estados mostram vantagem para Obama. As consultas nacionais realizadas depois das convenções deram ao presidente a chance de desempatar de Romney e deixá-lo para trás. Mas nada está seguro ainda.  O projeto vencedor não levará somente as batatas. Definirá o rumo das duas Américas e, por extensão, da economia mundial.

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