“Emblemático” desastre
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“Emblemático” desastre

denisechrispim

22 de março de 2011 | 15h53

Meus caros,

No ano que vem, quando desembarcar na Colômbia para a reunião de Cúpula das Américas, o presidente Barack Obama terá de enfrentar o estrago de seu discurso de ontem em Santiago. A expectativa gerada por seus principais assessores era de uma “fala emblemática” para a América Latina dentro do complexo do Palácio de La Moneda, assim como havia sido o seu discurso no Cairo, em 2009, para o mundo árabe. O texto lido por ele, entretanto, falhou de cima a baixo.

         Obama não fez o necessário mea-culpa dos EUA pelo seu apoio ostensivo aos golpes de Estado organizados pelas forças militares dos países da região nos anos 60 e 70. Estava no La Moneda, mas não se referiu ao presidente Salvador Allende, morto nesse palácio depois de severo bombardeio das tropas comandadas por Augusto Pinochet. Lembrou-se dos 40 anos da Aliança para o Progresso, iniciativa para a região do então presidente John Kennedy, mas não aproveitou para relançá-la.

A maior potência do planeta, capaz de destinar US$ 1,6 bilhão ao ano em cooperação militar ao Egito, trouxe de Washington um “grande anúncio para a América Latina: um programa de intercâmbio anual para 100 mil estudantes latino-americanos aprenderem inglês e contribuírem para uma região bilíngüe. Só isso? Sim. E o que mais? Nada.

         O texto do discurso mencionou, quase en passant, as violações de direitos humanos em Cuba. Insistiu no fortalecimento da democracia e em uma reafirmação dos compromissos da Carta Democrática Interamericana. Venezuela? Nenhuma menção à sistemática destruição das instituições venezuelanas pelo regime de Hugo Chávez – cuja resposta destemperada a uma fala crítica de Obama poderia ser diluída pelo mea-culpa pela atitude da Casa Branca de apoiar as ditaduras militares da região.

         Um assessor da Casa Branca ainda tentou contornar a constatação de fracasso do discurso feita por jornalistas espanhóis, latino-americanos e esta brasileira. Obama quis voltar-se ao “futuro”, desmotivar o apego aos erros do passado, defendeu. A ausência de aplausos nas frases escritas justamente para motivá-los, foi desculpada pela arquitetura pouco propícia do Centro Cultural do La Moneda e à platéia chilena, mais reservada. 

         A escusa mais importante, entretanto, foi a de que a Casa Branca acredita ser ainda muito cedo para um mea-culpa. “Isso acontecerá dentro de uns 15 anos. Não antes.”

         No Cairo, Obama foi mais ousado.  Suas palavras contribuíram para despertar a sempre necessária luta pela democracia, mesmo quando já instituída oficialmente. Quiçá tenha estimulado a onda de manifestações pró-democracia na Tunísia, no Egito, na Líbia, no Bahrein, no Iêmen e na Jordânia. Em Santiago do Chile, ao contrário, Obama desperdiçou palavras e tempo. Até mais.

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