Escadaria na penumbra
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Escadaria na penumbra

denisechrispim

21 de abril de 2014 | 17h56

 

Salão principal do Itamaraty às escuras, por Lisandra Paraguassu.

A escuridão tomou conta do Itamaraty, avisa a excelente repórter Lisandra Paraguassu, do Estadão em Brasília. Os salões e corredores na penumbra são os efeitos de uma onda de racionamentos só vista no final de 2003, quando as luzes do Palácio dos Arcos foram cortadas pela Companhia Energética de Brasília (CEB) por falta de pagamento. Desta vez, o gabinete do chanceler Luiz Alberto Figueiredo decidiu se precaver do vexame e ordenou uma série de medidas para ajustar os gastos do ministério ao corte de R$ 200 milhões no seu orçamento de R$ 1 bilhão para este ano.

Pode-se dizer que há demasiado gasto supérfluo a ser cortado no Itamaraty. Para que flores em eventos da diplomacia? Para que gastar tanto em presentes para os chefes de Estado visitados pela presidente da República ou – aos raríssimos – por ela recebidos? Por que não checar em várias agências e web sites os preços de passagens aéreas para se conseguir a mais baratinha? Para que enviar um carro ao aeroporto para buscar um diplomata em retorno de viagem de trabalho e levá-lo direto à lida no Itamaraty? Por que, em uma negociação comercial em Bruxelas, o Brasil tem de ser representado por mais de um diplomata de Brasília quando a União Europeia se sentará à mesa com toda uma equipe?

As despesas estão ceifadas ou monitoradas com afinco pelo gabinete de Figueiredo. O cobertor está mais curto, e os postos do Brasil no exterior já não podem mais receber ou ousar como antes, mesmo que o interesse seja divulgar o que há de melhor no País e aprofundar laços bilaterais ou regionais benéficos para a Nação. E há as questões práticas. No saguão do Palácio, apenas um holofote permanece ligado de noite, diz Lisandra. “Azar de quem precisa descer a bela – e perigosa – escada em caracol projetada por Oscar Niemayer.”

Concordo que, como regra, haverá recurso mal gasto e desperdício em qualquer repartição pública. O Itamaraty não será exceção. A iniciativa de cortar gastos federais é mais do que bem vinda e necessária, não só para evitar a constrangedora contabilidade criativa adotada pela Secretaria do Tesouro Nacional nos últimos anos como para ajustar as contas públicas com seriedade. A economia brasileira precisa disso, e o contribuinte merece. No entanto, uma das notícias mais bizarras que li nos últimos tempos foi a de que o Ibama gasta mais em viagens ao exterior do que o Itamaraty.

O corte de R$ 200 milhões no orçamento do ministério deve ser analisado também por outros ângulos. O primeiro é o desinteresse da presidente Dilma Rousseff com os temas de Política Exterior desde o início de seu mandato, mesmo em prejuízo da Nação. O segundo é a aversão da senhora presidente à diplomacia, uma carreira de Estado com tão poucos engenheiros.

O terceiro ângulo a ser observado é o da estrutura profissional do Itamaraty, impermeável ao aparelhamento partidário – até mesmo nas posições de direção em Brasília ou de chefia de postos no exterior. O quarto e não menos importante do que os anteriores é a natureza do trabalho executado pela Casa de Rio Branco. O ministério não realiza investimentos e, portanto, não há ali margem de manobra para contemplar interesses privados ou partidários dispostos a retribuir com generosidade. Os gastos do Itamaraty são integralmente de custeio de uma máquina.

Nos cálculos partidários, o Itamaraty não dá voto em ano de eleição presidencial e não tem o peso do Ministério de Desenvolvimento Social e de outras pastas com rubrica de investimentos. Finalmente, o quinto ângulo diz respeito ao fato de Ministério das Relações Exteriores ser o responsável por todos os gastos das viagens internacionais da presidente – desde a diária e hospedagem para ela, sua delegação e sua equipe técnica até o aluguel de carros, material de escritório e, em alguns casos, sala de imprensa. Isso inclui sua passagem por Lisboa, em janeiro, para jantar no restaurante Eleven.

Em dezembro de 2003, o então chanceler Celso Amorim foi surpreendido durante viagem presidencial ao Oriente Médio pela notícia do corte de luz no Itamaraty pela CEB. Naquela época, Amorim tecia a sua política Sul-Sul, abraçada por Luiz Inácio Lula da Silva, antecessor e mentor de Dilma Rousseff. A política exterior de Amorim é tão questionável quanto algumas de suas iniciativas mais polêmicas, como o apoio ao processo de esfacelamento das instituições democráticas na Venezuela, o acordo nuclear com o Irã, o empobrecimento das relações do Brasil com os Estados Unidos e a Europa, a questão de Honduras, o trabalho árduo para desmontar as negociações comerciais em curso. Mas é inegável o esforço do ex-chanceler para elevar o respeito da Esplanada e do Planalto pelo Itamaraty.

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