Imigração, omissão e intolerância
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Imigração, omissão e intolerância

denisechrispim

29 de março de 2011 | 12h23

Caríssimos,

Gostaria de retomar a primeira visita de Barack Obama à América Latina para tratar de uma séria pendência em sua agenda de governo. Imigração. A discussão de uma “reforma ampla do sistema” tem sido postergada e substituída por outras prioridades nos últimos anos, até mesmo quando Obama podia desfrutar da maioria folgada do partido democrata  nas duas casas do Congresso. Agora, com a composição mais republicana, a aprovação de um projeto imune a componentes xenófobos é impossível. O tema, quem sabe, possa ser  levado adiante se Obama for reeleito e se os democratas recuperarem a maioria na Câmara e maior folga no Senado, no ano que vem.  Sua omissão, entretanto, tem gerado um custo tremendo à sociedade americana. A ausência de um marco legal claro e  generoso (por que não?) tem sido ocupada por iniciativas locais, pelo preconceito crescente, pela intolerância.

 Sobretudo, com os imigrantes latino-americanos.

“Os Estados Unidos odeiam e sempre odiarão os imigrantes”, resumiu o cientista político David Shirk, da Universidade de San Diego, ao falar com jornalistas inscritos em um programa sobre imigração do Foreign Press Center, o braço do Departamento de Estado para a imprensa estrangeira no país.  “Todo grupo de fora enfrentou forte rejeição social. Antes, foram os irlandeses e os alemães. Hoje, são os latinos.”

Obama esteve em El Salvador no dia 22, a última parada de sua primeira visita à América Latina. O país foi escolhido pela Casa Branca como um exemplo de relação bilateral almejada na América Central e por sua enorme população emigrada aos  EUA. Atualmente, dois milhões de salvadorenhos vivem no país em uma espécie de limbo, com residência temporária e apenas a promessa de sua efetivação. A comunidade salvadorenha nos EUA enviou de volta ao país US$ 3,5 bilhões no ano passado – cerca de 30% do PIB. Em sua visita a San Salvador, entretanto, Obama apresentou-se de mãos vazias. Não pôde escapar de perguntas da imprensa nem das cobranças do presidente salvadorenho, Maurício Funes. Porém, não tinha mais do que sua antiga promessa a reiterar.

Cerca de 11 milhões de imigrantes vivem nos EUA sem autorização. A metade deles veio do México. Dos 308,7 milhões de habitantes do país, 50,5 milhões ou 16% são estrangeiros, regularizados ou não, de acordo com dados divulgados na semana passada pelo Census Bureau. Os EUA cada vez mais se “latinizam”. E cada vez mais há resistência a esse avanço.

No ano passado, a Câmara Estadual do Arizona aprovou uma lei para permitir a abordagem de policiais aos suspeitos de imigração ilegal e para encaminhar os indocumentados para a deportação. Essa atribuição não cabe à polícia, mas aos agentes de imigração. A aplicação da lei foi suspensa pela Corte Suprema de Justiça. Entretanto, os Estados de Oklahoma, Georgia, Mississipi, Nebraska, South Carolina e Pennsylvania pretendem seguir o mesmo caminho.

 No início do ano, deputados federais de cinco Estados apresentaram propuseram a eliminação do direito de anistia a imigrantes ilegais cujos filhos, nascidos nos EUA, tenham completado 21 anos. O texto contraria a 14ª Emenda da Constituição americana. Em dezembro passado, o Senado rejeitou o projeto de lei da Casa Branca para permitira a permanência no país de filhos de imigrantes ilegais por cinco anos e o acesso deles às universidades e ao serviço militar.

As três iniciativas nasceram no vácuo deixado por Obama. No seu discurso “O Estado da União”, no último dia 25, Obama mostrou-se disposto a buscar uma solução negociada. Mas,  no Congresso e nas regiões receptoras de imigrantes, o debate é acalorado. O partido republicano, sobretudo seu setor mais à direita (Tea Party), se opõe a qualquer concessão. Este momento pré-eleitoral nos EUA dificulta ainda mais um debate sério sobre o tema. Um ex-assessor de George W. Bush na Casa Branca, Rúben Barrales, hoje presidente da Câmara de Comércio de San Diego, considera seus companheiros republicanos “inábeis” ao tratar a questão. “O partido terá de fazer concessões à comunidade hispânica se quiser ser majoritário”, afirmou. Mas, americanos como Ira Mehlman, presidente da Federação para uma Reforma Americana de Imigração, os estrangeiros sem documentos são uma “ameaça”. “Eles são um sacrifício de investimento.”

Por hoje, é isso.

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