Itamaraty em reforma
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Itamaraty em reforma

denisechrispim

14 de fevereiro de 2014 | 19h25

 

O chanceler Luiz Alberto Figueiredo prepara uma reforma interna no Itamaraty. Pouco se sabe sobre as mudanças pleiteadas. A discussão corre a portas fechadas. Mas, como em vezes anteriores, pensa-se na adequação da diplomacia brasileira aos novos tempos. Profissionais ágeis, preparados, empenhados em suas atividades, motivados são desejáveis agora e sempre. As mudanças não chegarão a incutir nos diplomatas a mentalidade lógica da engenharia, muito desejada pela presidente Dilma Rousseff. Isso é certo, felizmente. Mas a reforma, se bem planejada e conduzida, pode neutralizar boa parte das críticas dirigidas – com e sem razão – ao Ministério das Relações Exteriores nos últimos tempos.

 

Figueiredo, ao menos, não tem de enfrentar o mesmo dilema da diplomacia americana, sujeita à designação de financiadores de campanha e amigos do presidente dos Estados Unidos para o comando de postos no exterior. No Brasil, profissionais da diplomacia têm assumido essa tarefa delicada. Raros foram os casos de indicação política nas últimas duas décadas, hoje inexistente. Espero que assim continue. A presença de embaixadores políticos em Brasília, por sua vez, sempre foi tida como temerária pelo governo e o setor privado. Em vários casos, essa avaliação foi confirmada na prática.

 

Nos EUA, para constrangimento da Casa Branca, uma revolta interna começou a irromper nos quadros diplomáticos. A Associação Americana do Serviço Exterior apelou ao governo Obama para definir uma qualificação mínima para seus embaixadores políticos. Em seus cálculos, 41 dos chefes de postos no exterior indicados por Obama apenas neste seu segundo mandato foram doadores e colaboradores de sua campanha de reeleição. Boa parte deles, sem nenhum preparo para as funções. Apenas 36 dos nomeados eram diplomatas de carreira. Na época de George W. Bush, houve 30 embaixador políticos, e na de Bill Clinton, 28.

 

Segundo o Washington Post, o indicado para a embaixada americana em Buenos Aires, Noah Bryson Mamet, admitiu em sabatina no Comitê de Relações Exteriores do Senado, nesta semana, jamais ter pisado na Argentina. Ele descreveu o país como uma “democracia madura” e abriu o flanco para ataques da bancada latina, liderada pelos senadores Marco Rúbio, republicano, e Robert Menéndez, democrata. A Argentina está londe de ser um terreno de tranquilidade mesmo para os EUA, tão desinteressados no restante das Américas. Mas Noah contribuíra com meio milhão de dólares para a campanha de Obama em 2012.

 

Durante sua sabatina, o indicado por Obama para a embaixada americana em Oslo, George Tsunis, fez referência ao “presidente” da Noruega, uma monarquia parlamentar, informou a Fox News, que bem sei ser de clara oposição a Obama. Tantos foram seus equívocos que Tsunis conseguiu afinar os partidos de situação e de oposição na Noruega contra sua vinda ao país como embaixador. Sua indicação, nos EUA, virou tema de piada. Nomeada para Budapeste, a também doadora para a campanha de Obama Colleen Bradley Bell, produtora de telenovelas, não conseguiu explicar aos senadores quais seriam os interesses americanos na Hungria.

 

O Brasil não se vê exposto a esse constrangimento por falta de competência de sua diplomacia.

Seus riscos são outros, já apontados neste blog.

 

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