No caminho da Mongólia
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No caminho da Mongólia

denisechrispim

25 de setembro de 2014 | 19h14

A presidente Dilma Rousseff não recebe as credenciais de novos embaixadores estrangeiros desde outubro de 2013. Representantes de 28 países esperam, ao longo desses 11 meses, o momento de serem chamados ao Palácio do Planalto enquanto executam suas funções no País de maneira parcial. O fato não chega a causar surpresa, vindo de uma presidente da República que confere tão pouca importância à agenda externa de seu governo e que não esconde seu desprezo pela diplomacia brasileira. Mas causa indignação.

 

Desde 1º de janeiro de 2011, Dilma Rousseff já havia feito chefes de Estado esperarem por sua resposta sobre uma visita oficial a Brasília. O Palácio do Planalto chegou a cancelar a visita de um chefe de Estado à presidente quando ele voava em direção ao Brasil. A duras penas, neste ano, os governos da China e do Japão conseguiram agendar as visitas Xi Jinping e de Shinzo Abe a Brasília. Essas atitudes certamente foram mais críticas em termos de desconstrução da imagem do Brasil no exterior. Mas há de se considerar que vinte dos embaixadores agora na fila provêm dos destinos de 22% das exportações brasileiras entre janeiro e agosto deste ano – US$ 33,9 bilhões.

 

Entre eles estão os de quatro sul-americanos: Chile, Colômbia, Paraguai e, vejam só!, Venezuela. Dois deles, portanto, parceiros do Mercosul. O de Cuba também aguarda pacientemente, assim como os de dois países africanos – o lusófilo Cabo Verde e a Nigéria –, das emergentes Turquia, Armênia e Tailândia e do infante Timor Leste, lusófilo por escolha e por influência do Brasil. Por essas menções, pode-se observar o descuido com que o Palácio do Planalto vem tratando a política exterior herdada do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

 

Há também na lista economias avançadas – Alemanha, Austrália, Dinamarca, Holanda, Irlanda, Israel, Japão e Suécia –, entre as quais algumas com longo histórico de cooperação, de diálogo e de parceria comercial com o Brasil. A Alemanha e o Japão comungam com o Brasil o desejo e o esforço de integrar no Conselho de Segurança das Nações Unidas. E há ainda a Bulgária, do Leste europeu, país de origem da família da própria presidente Dilma Rousseff. Cada um desses países representa algo significativo para o Brasil. Cada um tem a oferecer e a receber do Brasil. Cada um está à porta do Palácio do Planalto. Nos últimos três anos e oito meses, porém, a agenda externa brasileira tem superado a Mongólia no quesito isolamento.

 

A cerimônia de entrega de credenciais faz parte de um ritual da diplomacia no mundo todo, a ser conduzido pelo chefe de Estado. No Brasil, não chega aos rigores do Reino Unido, onde o embaixador é trazido ao Palácio de Buckinghan em carruagem e entrega o documento diretamente à rainha Elizabeth 2ª. Nos tempos de Fernando Henrique Cardoso e de Lula da Silva, o cuidado de receber o embaixador recém-chegado a Brasília foi bem aproveitado. Mas esperar o mesmo, agora, não seria atitude realista.

 

Nas poucas vezes em que tomou iniciativas na órbita da política externa, a presidente Rousseff mostrou-se desconectada do interesse nacional e da própria realidade internacional. Sua intervenção decisiva para a suspensão do Paraguai do Mercosul e a adesão da Venezuela como membro pleno do bloco, em 2012, foi um desses casos. Outro exemplo deu-se no dia 24, em Nova York, quando a presidente e candidata à reeleição fez da tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas seu palanque eleitoral e criticou à imprensa os ataques dos Estados Unidos e de seus aliados ao Exército Islâmico em território sírio.

 

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