O Brasil de Eckhout nas sombras
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O Brasil de Eckhout nas sombras

denisechrispim

29 de outubro de 2014 | 08h03

Uma grande decepção ver como a obra de Albert Eckhout tem sido tratada no Museu Nacional da Dinamarca. A esta instituição cabe a guarda e a exibição de parte da coleção de Eckhout sobre o Brasil da primeira metade do século XVII. Ali está o retrato a óleo da índia Tapuia carregando nas costas um cesto com pedaços humanos. Um pé quase escapa de seu cesto. Sua mão prende a mão de um inimigo executado e devorado. A tela não pode ser mais brasileira.

 

Outra traz um homem Tapuia com adornos exóticos na cabeça e na face. Uma aranha e uma serpente se aproximam de seu pé. A mulher Tupi em adaptação ao convívio com os europeus, posando sobre uma bananeira, tem uma criança ao colo e leva o cesto na cabeça. Suas partes íntimas estão cobertas por um pano atado à cintura. Ao fundo, uma fazenda “civilizatória”. A negra e o menininho dão os ares de uma colonização escravagista já em plenitude.

 

A coleção do Museu Nacional da Dinamarca ainda traz uma tela com um ritual de índios Tapuias e uma natureza morta com frutos tropicais – uma mostra do exotismo dos nativos e da flora da então colônia holandesa no Brasil. Eckhout tomara parte da corte do príncipe João Maurício de Nassau, o governador-geral da colônia holandesa no Brasil entre 1637 e 1644. Em Recife e redondezas, ele e Frans Post descreveram em pinceladas e desenhos o que viram e sentiram no país, para informar e fazer crer europeus que jamais viriam, em suas vidas, ao Novo Mundo.

 

Parte da obra de Eckhout foi doada por Nassau a seu primo Frederico III, da Dinamarca. Sua importância para o Brasil foi assinalada por Dom Pedro II, que encomendou cópias menores. Não são, obviamente, comparáveis. Ver os tipos humanos do Brasil do século XVII em tamanho natural tem um efeito formidável, para um brasileiro, comparável ao do reencontro. Em Copenhague, porém, tal experiência perde as dimensões sensorial, histórica e cultural.

 

As telas estão timidamente postas lado a lado em duas paredes de uma pequena sala, a de número 151, a primeira das que exibem a coleção etnográfica permanente do Museu Nacional da Dinamarca. Do lado oposto estão expostos cocares e outros adereços de indígenas brasileiros, coletados em outros tempos. Não há entre as telas um espaço em branco, para dar maior impacto à observação das telas, nem luz apropriada. Nem uma sala à altura dos trabalhos. Apenas um pequeno texto, com versão em inglês, descreve o conjunto. O visitante sabe por ele apenas que Eckhout era holandês e tomara parte da expedição colonizadora de Nassau ao Brasil. Nada traz o texto sobre os tipos humanos ali descritos. Ao visitante cabe a conclusão óbvia de que seriam modelos locais do passado de um distante e esquisito país. Nem mesmo sobre a impressionante índia antropófaga, mãe de tantos brasileiros, há uma nota.

 

Confesso que, desde meu primeiro contato com a obra de Eckhout, imaginei sua coleção sobre o Brasil exposta ao público na Dinamarca de forma grandiosa ou, pelo menos, apropriada. Parte dessa obra esteve exposta em São Paulo no início dos anos 90 e atraiu milhares de pessoas. Houve grande interesse da imprensa e imensa frustração geral por não tê-la como propriedade do País onde foi pintada. O Museu Nacional da Dinamarca, infelizmente, não exibe a coleção Eckhout como gostaríamos, mas em uma versão acanhada e empobrecida. Trata-se da perspectiva do outro. A difícil e indecifrável perspetiva do outro.

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