O teste será Cuba e Venezuela
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O teste será Cuba e Venezuela

denisechrispim

24 de março de 2011 | 14h23

Meus caros,

O voto do Brasil em favor da investigação de violações dos direitos humanos no Irã foi muito bem-vindo. A posição omissa do governo  nessa questão não só nos feria, como cidadãos, como também representava um viés abominável da nossa política exterior – ditada conforme os interesses dos principais gabinetes de Brasília, distantes dos interesses da Nação, nos últimos oito anos. A iniciativa brasileira diante do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, nesta manhã, confirmou a declaração de Dilma Rousseff ao jornal Washington Post, ainda como presidente eleita, em dezembro passado. Porém, o teste real da mudança de atitude do novo governo brasileiro nessa questão virá apenas quando as violações de direitos humanos em Cuba e na Venezuela forem submetidas a voto no mesmo Conselho.

Tanto nos tempos de Luiz Inácio Lula da Silva quanto na era Fernando Henrique Cardoso, o Brasil se absteve de votar resoluções de condenação a Cuba pela violação dos direitos humanos. A justificativa estava na proposta sempre politicamente enviesada dos Estados Unidos, em contradição com sua política doméstica e em relação a seus aliados. Nos últimos oito anos, a oportunidade de negócios justificou uma maior aproximação e boa vontade do governo para com os regimes dos irmãos Castro, de Hugo Chávez, de Muamar Kadafi, com benefícios visíveis para parte da indústria brasileira e para as empreiteiras.

Porém, o gabinete presidencial acrescentou outras razões, ainda opacas para os contribuintes brasileiros. Não passou incólume e sem profunda vergonha a comparação repetida duas vezes pelo presidente Lula, há um ano, dos presos políticos cubanos a criminosos comuns. Ainda causa espanto sua reiterada defesa ao regime político bolivariano, como na vez em que declarou haver “excesso de democracia na Venezuela”. A desconstrução das instituições venezuelanas, por obra de Chávez, foi sublimada pelo governo brasileiro, quando não aplaudida discretamente.  

         Dilma Rousseff e seu chanceler, Antônio Patriota, ainda não deram uma palavra sobre a democracia e os direitos humanos nesses países. Tampouco houve movimentos populares, como no Oriente Médio e no Norte da África, nem votações no Conselho de Direitos Humanos para pôr em xeque a posição do novo governo sobre direitos humanos. Não sabemos ainda se as mesmas motivações da gestão Lula serão preservadas por sua sucessora. Será preciso algum tempo para, aos poucos, os caminhos da política externa brasileira no governo Dilma serem testados e averiguados. Até lá.

         Recomendo a leitura dos comentários sobre os direitos humanos na Arábia Saudita no blog de Gustavo Chacra, “De Beirute a Nova York”.

PS: O propósito do blog é promover uma discussão construtiva, tendo como base as regras consagradas de polidez. Comentários preconceituosos não serão publicados. Da mesma forma, não permitirei a exposição de respostas ofensivas a outros leitores nem a mim. Este espaço não se prestará à propaganda partidária e tampouco estará aberto à veiculação de vídeos. Peço aos comentaristas se aterem ao conteúdo do debate. Obrigada.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.