Sem banquete em Washington
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Sem banquete em Washington

denisechrispim

12 de março de 2012 | 08h56

A visita da presidente Dilma Rousseff à Casa Branca, no dia 9 de abril, vai assinalar a dificuldade de os Estados Unidos qualificarem o Brasil como parceiro, como faz com a China e a Índia. O aprofundamento das relações não se mostra possível. A líder brasileira não receberá nem sequer o grau de atenção e de honra de uma visitante de Estado. Por falta de tópicos mais encorpados, sua agenda positiva com o presidente americano, Barack Obama, terá como ponto principal o envio de estudantes brasileiros aos EUA. A negativa estará marcada pelas divergências entre Washington e Brasília sobre a Síria e o Irã e por imbróglios comerciais.

         A visita de Estado pode ser realizada uma única vez a cada país durante o mandato presidencial e prevê a presença do líder nas sedes do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Assim foi recebido em Brasília o presidente americano, Barack Obama, em março de 2011. Ao declinar essa atenção especial a Dilma Rousseff, a Casa Branca argumentou não conceder esse tratamento a nenhum visitante neste ano eleitoral no país. A regra terá exceção. No próximo dia 14, Obama receberá o primeiro-ministro britânico, David Cameron, em visita de Estado e lhe oferecerá um banquete de gala.

         A comparação dentre Brasil e Reino Unido, aliado americano na coalizão em guerra no Afeganistão e na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), pode ser indevida. Mas indica não valer a pena, para a Casa Branca, abrir a exceção para o Brasil.  O presidente da China, Hu Jintao, foi recebido em visita de Estado em janeiro de 2011, e o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, em novembro de 2009. Mike Hammer, secretário assistente de Estado para Relações Públicas, afirmou no último dia 08 “não haver resistência por parte dos EUA em aprofundar e ampliar as relações com o Brasil”.

Questionado se a resistência estaria no Brasil, ele se esquivou. “Isso você tem de perguntar para os brasileiros”.

Segundo Hammer, Síria e Irã serão temas abordados durante a visita. Há duas semanas, ele afirmara ser de interesse do governo americano ouvir o Brasil sobre a questão nuclear do Irã. Anteontem, indicou ser importante para Washington agregar o País a seu movimento internacional para forçar a renúncia do presidente sírio, Bashar al-Assad, apoiar a oposição e dar assistência humanitária.  “Queríamos ver o Brasil trabalhando conosco e com outros países para nos ajudar a pressionar al-Assad”, insistiu Hammer.

As respostas já são conhecidas pelo governo americano. O diferencial estará no tom da dupla negativa de Dilma Rousseff.

No âmbito bilateral, o recente cancelamento da compra de 20 aviões A-29 Super Tucano pelas Forças Armadas dos EUA, dois meses depois do anúncio da vitória da Embraer, trouxe desconforto para o governo americano apelar ao aumento do comércio e de investimentos bilaterais. A demora dos EUA em autorizar a importação de carne maturada do Brasil criou outra zona potencial de atrito. Esse compromisso tinha sido uma das contrapartidas americanas para evitar a adoção de retaliações do Brasil, com base no resultado da controvérsia sobre os subsídios ao algodão.

         Sem temas de impacto a serem fechados durante a visita, ambos os lados estão afastado termos como o “relançamento das relações bilaterais” ou a “parceria Brasil-EUA” para qualificar a primeira visita da presidente Dilma a Washington. Mesmo a ambição americana de ver no Brasil um futuro fornecedor seguro de petróleo esbarra na correta resistência brasileira em exportar combustível bruto de suas reservas do pré-sal. O etanol, nos EUA, perdeu relevância com o impulso do governo Obama à fabricação de carros elétricos, em vez de veículos movidos a álcool de milho.

         Nesse contexto, a Educação tornou-se única área de possível estreitamento das relações bilaterais. O governo americano vê no Ciência sem Fronteira, programa do Ministério da Educação que permitirá o envio de 12 mil estudantes brasileiros às melhores universidades do exterior, como uma iniciativa tão impactante na sociedade e na economia brasileira, no futuro, quanto a criação da Petrobrás, da Embrapa e do BNDES, no passado. Os EUA querem receber boa parte desse universo.

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