Violência na Venezuela, silêncio no Brasil
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Violência na Venezuela, silêncio no Brasil

denisechrispim

18 de fevereiro de 2014 | 13h47

Nesta madrugada, antevendo uma nova onda de violência contra a oposição na Venezuela, a Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac) divulgou um comunicado para pedir ao governo de Nicolás Maduro “continuar seus esforços para propiciar um diálogo entre as forças políticas do país”. A Celac informou estar “preocupada” com a violência de 12 de fevereiro e dos dias seguintes e “lamentou” a perda de vidas humanas. Li o texto nesta manhã e uma porção de exclamações surgiram na minha mente.

Dizer que Maduro deve “continuar esforços” que nunca empreendeu em favor do diálogo com a oposição me pareceu uma enganação assombrosa, senão uma vergonha. Mas duas questões me pareceram especialmente interessantes. A primeira foi a expressão de solidariedade da Celac ao “povo irmão da República Bolivariana da Venezuela”, não explicitamente a seu governo.

Não tenho a ingenuidade de vislumbrar uma cobrança da Celac, um projeto de Hugo Chávez apoiadíssimo pelo governo brasileiro para se contrapor à Organização dos Estados Americanos (OEA), ao regime bolivariano. Não foram impressos no comunicado termos diplomaticamente mais duros – como “repúdio”, “exortação” ou “condenação”, como meios de pressionar o governo Maduro a tomar um novo rumo político, democrático e de respeito às opiniões contrárias à sua cartilha e aos mais elementares direitos humanos.

A segunda questão a me chamar a atenção foi o momento de divulgação do comunicado: poucas horas antes do início da manifestação convocada pelo líder oposicionista Leopoldo López, do partido Vontade Popular, até a sede do Ministério do Interior, onde se entregaria à Justiça de seu país. López foi arbitrariamente acusado de terrorismo e de homicídio pelo regime bolivariano. O momento de publicação da nota deu a entender uma preocupação adicional dos membros da Celac e um indisfarçável alerta ao governo de Maduro para não reagir violentamente à marcha desta vez.

A expectativa, infelizmente, é de novo confronto violento. Na noite de ontem, um estudante de 17 anos morreu em um hospital de Caracas. Foi a quarta vítima fatal da violência contra protestos da oposição. Também ontem, a sede do Vontade Popular foi invadida por agentes de segurança do governo de Maduro. Mesmo que os agentes diretamente ligados ao governo se contenham, por ordem de Maduro, nada impede que as milícias armadas e doutrinadas desde os tempos de Chávez tomem iniciativas autônomas.

As expressões de preocupação flagrante e os termos diplomáticos mais contundentes de alerta ao Palácio de Miraflores e de condenação à violência partiram do governo dos Estados Unidos, da União Européia, do Alto Comissariado para Direitos Humanos das Nações Unidas e do Secretariado-Geral da OEA. Do governo de Dilma Rousseff, por razões óbvias de simpatia ao regime bolivariano, nenhuma nota surgiu até a publicação deste blog sobre a violência no país vizinho. O Mercosul tampouco se manifestou sobre os acontecimentos. Somente a Celac, nesse tom morno de alerta, se expressou. Seu comunicado chegou a mim, curiosamente, pelo Ministério de Relações Exteriores e Culto da Argentina. O Itamaraty, aparentemente, não recebeu aval do Planalto para fazê-lo circular no País. Silêncio.

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