Assassinato no Vaticano

Assassinato no Vaticano

Cristiano Dias

18 Setembro 2015 | 09h28

A Swiss Guard stands as Pope Francis celebrates the New Year mass in Saint Peter's Basilica at the Vatican January 1, 2015.  REUTERS/Alessandro Bianchi (VATICAN - Tags: RELIGION)

Reuters

O Vaticano tem pouco mais de 800 almas e mais da metade vive fora dos muros da cidade. A última monarquia absolutista do mundo é governada pelo sumo pontífice, que é juiz supremo, legislador, comandante-chefe e não tem de dar satisfação a ninguém. A seu comando está a Guarda Suíça, regimento de cerca de 100 homens fantasiados de ritmistas da Unidos da Tijuca. Apesar de haver um policial para cada quatro cidadãos e da espiritualidade supostamente elevada de seus residentes, o território tem a taxa de criminalidade mais alta do mundo: são mais ou menos 350 processos civis e mais de 400 criminais por ano, uma média de 1,5 caso por habitante, 20 vezes mais do que na Itália. Não que a Igreja seja um covil de freiras cleptomaníacas e cardeais psicopatas. Longe disso. Quase todas as violações são pequenos delitos ou furtos cometidos por batedores de carteira e outros párias que se misturam à turba de 18 milhões de peregrinos e turistas que circulam por ali todo ano.

Mais de 90% dos crimes ficam impunes, porque basta o gatuno cruzar a praça e arrastar suas sandálias tranquilamente até Roma. Mas mesmo que fossem pegos, não haveria onde colocá-los. O Vaticano tem uma estação de rádio, uma agência dos correios, uma farmácia e um supermercado, mas não tem cadeia. O prédio da Gendarmaria até tem algumas celas, mas elas sempre foram mais úteis como almoxarifado. Quando o caso é grave, o vigarista é enviado para uma prisão italiana, às custas do papado. O inspetor-geral do Vaticano, portanto, tem o cargo mais modorrento do mundo. Crise? Só em fatalidades, como em dezembro de 2014. Às vésperas do Natal, um empresário subiu no telhado da basílica para protestar contra o governo. Quase ao mesmo tempo, uma ativista ucraniana tirou a roupa e se agarrou a uma estátua do menino Jesus. Ambos foram presos em flagrante. No dia seguinte, o encarregado da segurança do Vaticano convocou os jornalistas para reclamar da superlotação carcerária.

Mas não há bem que sempre dure. Por isso, aquele 4 de maio de 1998 foi diferente. Alois Estermann, de 43 anos, acabara de ser nomeado pelo papa João Paulo II como novo comandante da Guarda Suíça. Pouco antes das 21 horas, quando a cidade já havia se livrado do barulho dos turistas, ele estava com sua mulher, Gladys Meza Romero, em seu apartamento, ao lado do Palácio Apostólico. Naquela noite, um homem vestindo jeans e casaco de couro preto foi visto caminhando na chuva, atravessando o pátio da residência oficial do papa, na direção da sede da Gendarmaria. Uma freira disse ter escutado, instantes depois, uma pessoa subindo as escadas do prédio de Estermann. Alguém bateu à porta. Gladys atendeu. O sujeito deu três passos para dentro da residência e executou o casal à queima-roupa. Em seguida, ajoelhou-se, colocou a SIG 9mm na boca e puxou o gatilho.

O jovem foi identificado como Cédric Tornay, de 23 anos, cabo da Guarda Suíça. Gianluigi Marrone, burocrata encarregado da segurança do Vaticano, quase desmaiou ao ver a cena do crime. Não é preciso muita imaginação para visualizar também a cara de espanto de Joaquín Navarro-Valls, o poderoso porta-voz do papa. Duplo assassinato seguido de suicídio ou triplo homicídio qualificado? Aos 62 anos, Valls era a eminência parda de João Paulo II. Jornalista espanhol, membro do Opus Dei, dizia sem muita modéstia que 90% do que a imprensa publicava sobre o Vaticano tinha como base informações que ele passava. Três horas após o crime, sem nenhum interrogatório ou autópsia, ele assinou um comunicado resolvendo o caso por decreto: Tornay matou Estermann em um “ataque de raiva”. O motivo? Ele havia barrado uma condecoração ao cabo. Como prova, uma carta de suicídio. A partir daí, as ações do papado levantam suspeitas e abrem o leque de teorias conspiratórias.

A polícia italiana foi proibida de entrar no Vaticano e as autópsias foram realizadas a portas fechadas. A mãe de Tornay, Muguette Baudat, diz ter sido ameaçada por enviados do papa e revelou que o filho andava xeretando o Opus Dei. Ela mandou fazer uma autópsia independente, que desmentiu vários pontos da versão oficial — como o buraco de 7mm em seu crânio, incompatível com o disparo de uma 9mm. A carta de suicídio, escrita em francês para a mãe, continha erros gramaticais bisonhos. Mais tarde, grafologistas suíços atestaram que o documento era uma falsificação grosseira. Marcus Wolf, número 2 da polícia política da Alemanha Oriental, garantiu que Estermann havia sido agente da Stasi. Colegas de Tornay relataram que o jovem sofria bullying do oficial. Alguns jornalistas, como o britânico John Follain, autor de City of Secrets, escutaram nos bastidores da Santa Sé que Estermann era gay e teria trocado o cabo por um outro guarda. Enfim, um enredo folhetinesco com poucos personagens e múltiplas personalidades. Muguette não acreditou no suicídio do filho. Enviou carta ao papa pedindo a reabertura do caso, mas João Paulo II já lutava contra o Parkinson e havia se tornado refém da cúria. Bento XVI ignorou o pedido. Francisco nunca tocou no assunto. Enquanto isso, vale a versão de Valls. Roma locuta, causa finita.