A degradação da política dos EUA

A degradação da política dos EUA

Trump pisoteia regras não escritas de democracias saudáveis

Redação Internacional

21 de outubro de 2016 | 05h00

THE ECONOMIST

Como é que as pessoas passam a aceitar o que antes consideravam inaceitável? Em 1927, Frederic Thrasher publicou um estudo sobre 1.313 gangues de Chicago. Cada uma delas obedecia a determinadas normas tácitas, que, embora parecessem justas para os integrantes do grupo, continuavam sendo repulsivas para o restante da sociedade.

Assim é com Donald Trump e muitos de seus eleitores. Assumindo como normais atitudes que, antes de sua incursão no cenário político, eram vistas como inadmissíveis, Trump jogou um balde de lama fétida na cultura política americana.

A gravação, feita em 2005 e revelada pelo jornal The Washington Post no último dia 7, em que o magnata se gaba de agarrar as mulheres “pela… (órgão sexual feminino)”, já tinha sido coisa de extremo mau gosto. Mais preocupante ainda é o fato de muitos partidários de Trump considerarem seu comportamento normal. Não menos inquietante foi a ameaça que o republicano fez no segundo debate presidencial, de pôr Hillary Clinton na cadeia se for eleito.

Souvenir da campanha do republicano Donald Trump

Souvenir da campanha do republicano Donald Trump

Numa democracia mais frágil, esse tipo de declaração seria prenúncio de violência pós-eleitoral. Felizmente, os EUA não entrarão em convulsão social em 9 de novembro. Mas isso decorre menos da capacidade que o Estado tem de impor o respeito à lei, do que das regras não escritas que garantem a pujança da democracia americana. São essas regras que Trump está pisoteando – e que os americanos precisam defender.

Se a afirmação parece exagerada, considere-se as inovações que Trump introduziu este ano no debate público americano: a proposta de que os muçulmanos sejam impedidos de entrar no país; a ideia de que, por ser filho de mexicanos, um juiz federal não teria condições de julgar um processo que envolve o magnata; o deboche da deficiência física de um repórter; o alerta aos eleitores de que eles precisam ficar de olho em Hillary, a “trapaceira”, para que ela não fraude a eleição.

Em ensaio publicado no início dos anos 90, o falecido sociólogo e senador Daniel Patrick Moynihan diz que, quando muitas coisas ruins acontecem ao mesmo tempo, as pessoas relaxam os critérios que usam para definir o que entendem por comportamento desviante, até que a lista de atitudes estigmatizadas se torna suficientemente pequena para que a sociedade tenha condições de lidar com elas.

Quando os pais começam a se perguntar se devem permitir que seus filhos pequenos assistam aos debates presidenciais, receando que eles sejam expostos a algo impróprio, é sinal de que a promessa que Trump fez de construir um muro na fronteira com o México já não parece tão chocante assim.

Essa maneira de fazer política não é nova. Trump está trazendo para o centro do cenário político americano uma vertente de intolerância e pessimismo, explorada com fins lucrativos por uma série de empreendedores, radialistas e blogueiros, para a qual, neste início de século 21, viver no país mais rico e poderoso do mundo é algo que beira o insuportável. Em seu ponto de vista, não é esta ou aquela política que está equivocada, mas o sistema inteiro que precisa ser implodido a fim de que os problemas dos EUA possam ser finalmente solucionados.

Ambiguidade. O estilo de apresentador de reality show de Trump faz com que a proposição pareça menos alarmante, criando uma ambiguidade que deixa as pessoas sem saber se ele está realmente falando a sério. Toda barbaridade que sai de sua boca contém uma pequena brecha para o desmentido plausível.

Ao deixar os vândalos à solta para que eles ponham abaixo as estruturas apodrecidas de Washington, os eleitores de Trump que guardam alguma dignidade dentro de si esperam que a vida pública do país possa ser reconstruída e venha a representar pessoas reais, em vez de elites e grupos de interesse. Quando chegam à conclusão de que a política é só sujeira ou despropósito, as pessoas deixam de acreditar nela. E em geral isso só torna as coisa piores.

Se, contrariando os prognósticos, Trump vencer a eleição, os republicanos terão de satisfazer as expectativas que o magnata criou em relação a protecionismo, aumento nos gastos públicos combinado com redução de impostos, hostilidade para com os estrangeiros e retrocesso em décadas de política externa. Isso fará dos EUA um país mais pobre, mais fraco e menos seguro. Ao mesmo tempo, o Partido Republicano continuará precisando do apoio dos que hoje vibram com Trump. Longe de ser renovada, a política americana se tornará mais agressiva e selvagem.

Se, como indicam as pesquisas, Trump perder, Hillary assumirá a presidência com milhões de pessoas acreditando que ela deveria era estar na cadeia. É possível que a derrota seja tão esmagadora que os republicanos percam a maioria em ambas as casas do Congresso. Isso daria a Hillary pelo menos dois anos, até as eleições legislativas de meio de mandato, para que ela reformasse a lei de imigração, ampliasse os investimentos em infraestrutura e alterasse o equilíbrio entre conservadores e progressistas na Suprema Corte.

Seriam realizações importantes, mas quase 40% dos eleitores do país ficariam com a sensação de terem sido submetidos ao rolo compressor de um governo hostil. A política americana poderia se tornar ainda mais polarizada.

Uma tomada de consciência precisa acontecer em larga escala. Disputas políticas saudáveis não podem se confundir com guerras entre gangues. A política exige disposição para negociar, pois fazer concessões em algumas áreas significa conquistar avanços em outras.

Requer o reconhecimento de que a honestidade e a ética não são monopólio de um dos lados, por maior que sejam as divergências. A campanha eleitoral de 2016 tratou essas ideias com escárnio e desdém. O prejuízo é de todos os americanos.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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