A guerra nuclear ao alcance de Trump

Presidente eleito tem acesso, durante transição, aos ‘segredos mais profundos’ dos EUA

Redação Internacional

17 de novembro de 2016 | 05h00

Bob Woodward
THE WASHINGTON POST

Uma das mais importantes fases da passagem do poder para o presidente eleito Donald Trump inclui briefings do serviço de informações e das operações secretas dos EUA, bem como informações sobre os extraordinários poderes que ele terá sobre as Forças Armadas, especialmente quanto a planos de contingência para o uso de armas nucleares.

Em 2008, quando o presidente eleito Barack Obama recebeu informações secretas numa instalação de alta segurança de Chicago, brincou: “Ainda bem que essa sala tem janelas gradeadas, ou eu talvez pulasse fora”.

Donald Trump, the president-elect, shakes hands with President Barack Obama during a meeting in the Oval Office of the White House in Washington, Nov. 10, 2016. (Stephen Crowley/The New York Times)

Obama e Trump já deram início à transição. (Stephen Crowley/The New York Times)

Embora Trump já tenha tido acesso a algumas informações sensíveis sobre ameaças e meios de defesa do país, há uma série de briefings específicos programados para o presidente eleito abordando aquilo que Obama chamou de “nossos segredos mais profundos”.

A porta-voz de Trump, Hope Hicks, disse que não poderia informar nada a respeito da programação dos briefings. Presidentes anteriores os receberam durante toda a transição.

O primeiro briefing é um panorama detalhado, com informações técnicas secretas sobre os Programas de Acesso Especial, que lidam com ataques com drones e outras operações de inteligência. Isso incluiria os nomes, se Trump quiser saber, de dezenas de funcionários no exterior pagos pela CIA, ao custo de milhões de dólares. Os presidentes não costumam pedir nomes, a menos que o caso envolva um agente particularmente importante da CIA.

Outros métodos incluem as técnicas mais secretas da Agência de Segurança Nacional para interceptar comunicações no exterior, armazená-las e fornecê-las instantaneamente a analistas e operadores. Trump aprenderá que o presidente é considerado o “cliente número 1” pela comunidade de informações, que tem por tradição atender a toda e qualquer requisição presidencial.

O segundo briefing é sobre ações secretas da CIA no exterior, realizadas sem que venha a público a responsabilidade dos EUA. Há atualmente uma dezena dessas “ordens de ação”, assinadas pelo presidente. Algumas compreendem licença para realizar operações de contraterrorismo em dezenas de países. Outras são de alcance mais limitado, como apoio a ações clandestinas num determinado país para deter um genocídio ou fazer pagamentos a opositores políticos ou rebeldes.

Pelas leis e regulamentos, tais operações encobertas são ordenadas pelo presidente. As que foram determinadas por Obama vão continuara valendo se Trump, como presidente, não as modificar. Normalmente, o presidente eleito toma conhecimento das operações encobertas em andamento e decide, antes da posse, se quer que mantê-las, modificá-las ou interrompê-las. Após prestar juramento, ele pode ordenar novas operações. Obama foi informado sobre operações encobertas em 9 de dezembro de 2008.

Pela lei, o presidente pode lançar novas operações encobertas, mas tem de informar os comitês de inteligência do Senado e da Câmara. Para operações mais sensíveis, ele precisa informar apenas a “Gangue dos Oito” – os líderes dos dois partidos na Câmara e no Senado, mais o presidente e o vice dos comitês de inteligência.

Entre as operações mais importantes estão as de “contraproliferação”, destinadas a impedir um país de obter armas nucleares ou veículos condutores dessas armas. Outras operações previstas são ciberataques, visando a invadir sistemas de informática de governos estrangeiros.

Ação interna. Além dessas informações, Trump receberá outras sobre contraterrorismo doméstico, supervisionado pelo FBI e pelo Departamento de Segurança Interna. Depois do 11 de Setembro, o FBI recebeu carta branca para impedir novos ataques. Iniciativas para penetrar sistemas bancários, redes de comunicações e corporações estrangeiras nos EUA têm sido expandidas.

Trump receberá informações sobre Continuidade de Governo, que são planos e procedimentos estabelecidos para garantir a linha de sucessão presidencial. Tais planos podem ser adotados, por exemplo, no caso de uma emergência em que o presidente morra ou fique impedido de cumprir seus deveres.

Um terceiro briefing refere-se a planos e opções de guerra nuclear. A “bola de futebol”, uma maleta carregada pelo assessor militar do presidente, contém códigos de autenticação destinados a assegurar que uma ordem de ataque nuclear venha apenas do comandante em chefe. A “bola de futebol” também contém um livro de opções caridosamente chamado de Manual de Decisões Presidenciais. Esse livro ultrassecreto de palavras-chave em código, também conhecido como Livro Negro, tem cerca de 75 páginas de planos de contingência específicos para o uso de armas nucleares contra potenciais adversários, como Rússia e China.

O presidente pode escolher “pacotes” de ataques nucleares a alvos de três categorias: militares, de apoio à guerra e alvos econômicos ou de liderança. O Livro Negro também inclui estimativas sobre o número de baixas que podem ocorrer sob qualquer uma das opções principais. São sempre na casa dos milhões, e em alguns casos, acima dos 100 milhões. Após os briefings de 2008, o presidente Obama disse a um conselheiro próximo que aquela fora uma das mais difíceis experiências de sua vida.

“Estou herdando um mundo que pode explodir a qualquer momento, de vários modos, e para impedir que isso aconteça terei ferramentas poderosas, mas limitadas e talvez de eficácia duvidosa.” Numa entrevista em 2010, Obama confirmou que fizera um comentário desse tipo.

“Há acontecimentos caóticos lá fora”, disse ele. “A toda hora estão ocorrendo ataques, explosões, violência, coisas odiosas.” Ele concordou que, como presidente, era sua responsabilidade lidar com esses problemas. “As pessoas dizem: você é a pessoa mais poderosa do mundo. Por que não está fazendo nada a respeito?” O poder da presidência tem dois lados: existe a extraordinária concentração de autoridade constitucional e legal, mas por outro lado, como disse Obama, esse poder pode ser limitado e duvidoso.Em breve, Trump vai conhecer tanto o poder quanto seus limites. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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