A influência do favorecimento racial na política americana

Redação Internacional

18 Agosto 2016 | 05h00

Ross Douthat

THE NEW YORK TIMES

Pense no tipo de eleitor de Donald Trump, identificado por vários estudos como seu seguidor típico: homem branco, sem uma formação superior, que vive em uma região que enfrenta uma crise econômica. O que você vê? Um novo “indivíduo esquecido”, ignorado pelas elites de ambos os partidos, deslocado social e economicamente, que vota em Trump porque, ao que parece, ele coloca a classe trabalhadora em primeiro lugar? Ou um sujeito branco, intolerante e ressentido, que luta contra a transformação do país apoiando um candidato que promete deixar os EUA novamente propício ao racismo?

Os conservadores favoráveis a uma mudança populista do enfoque do partido, em assuntos como impostos ou programas de transferência nas universidades, têm sublinhado como os republicanos à época de Reagan falharam com a classe operária e insistem numa política conservadora solidária que toma emprestado alguma coisa dos estragos do trumpismo.
Do mesmo modo à esquerda: quanto mais satisfeito você estiver com um liberalismo em que os temas sociais é que mais fornecem energia para o Partido Democrata, o mais provável é que será objeto de piadas no Twitter toda vez que Trump ou um dos seus seguidores fizer um ataque xenófobo.

Por outro lado, quanto mais defender uma política de esquerda que privilegia as forças econômicas, mais acreditará que o apoio dos operários a Trump é a amarga consequência do retorno do Partido Democrata ao neoliberalismo, e alegará que a democracia social, em vez de humilhação e abandono, é a cura para o populismo de direita. É importante que os que defendem uma solidariedade socioeconômica, de direita ou esquerda, reconheçam que as queixas de caráter racial e econômico não podem ser sempre separadas e que, infelizmente, uma política de competição étnica é infelizmente comum nos assuntos políticos.

Analise a trajetória do liberalismo: nos anos 1930, o New Deal de Franklin Roosevelt deliberadamente excluiu os negros de alguns benefícios e programas de emprego. Foi discriminação, mas também favorecimento político. Era uma época em que a “ação afirmativa era branca”, citando o historiador Ira Katznelson, fortalecendo os trabalhadores brancos em detrimento dos afro-americanos.

Décadas mais tarde, o liberalismo criou programas de ação afirmativa para ajudar aqueles mesmos afro-americanos. Foi arrependimento e reparação, mas também um outro tipo de favorecimento político: promessa de ajuda, benefícios com base na raça que só o liberalismo poderia oferecer.

Com o tempo esta promessa foi estendida para grupos cujas reivindicações não eram tão prementes como a dos descendentes dos escravos americanos, mesmo se a imigração em massa ampliou o número potencial de beneficiários. No final adotamos um liberalismo com uma preferência permanente pelos grupos minoritários, por fluxos imigratórios permanentemente grandes – e ainda programas sociais que apenas os imigrantes recentes provavelmente usam mais do que os americanos nativos.

Essa combinação tem raízes no idealismo. Mas ainda equivale a um sistema de favorecimento étnico, que os americanos que não são ricos e nem pobres o suficiente para usar o Medicaid consideram particularmente tendencioso. Esse eleitorado, uma classe média baixa, bem remunerada, mas insegura, basicamente votará em Trump.
Ao aceitarem a política de identidade branca, estão sendo intolerantes, mas também imitadores: esta lenga-lenga protecionista de Trump se resume no desejo de adotarmos novamente políticas que especificamente beneficiam os brancos da classe média baixa – benefícios sociais para setores tradicionais e ação afirmativa para os brancos. Infelizmente isto faz parte de um ciclo que se repete . Em uma sociedade multiétnica, partidos multirraciais são exceção.

Quebrar esse ciclo não será fácil para nenhum dos partidos. A energia ativista à esquerda vem empurrando no sentido de uma política mais focada etnicamente, devotada a corrigir erros estruturais baseados na raça. Essa energia será abrandada temporariamente com a fuga de brancos bem educados do eleitorado de Trump, mas a ausência de afinidade entre os brancos moderados que votam em Hillary e a base minoritária, mais pobre, do partido, implica que essa coalizão temporária deve se romper exatamente na questão racial. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO