A longa e penosa trajetória da provável candidata

Redação Internacional

09 Junho 2016 | 05h00

AMY CHOZICK
The New York Times

Se há algum momento especial que represente bem a trajetória de Hillary Clinton até a indicação democrata para a eleição de novembro não foi o ensolarado pontapé inicial da campanha em Nova York, em junho, ou algum de seus discursos comemorando as suadas vitórias nas primárias sobre o senador Bernie Sanders.

Não. Foi o instante fora do roteiro, em outubro, em que uma Hillary blasé espanou com indiferença do ombro um imaginário fiapo enquanto um painel da Câmara, conduzido pelos republicanos, a submetia a um interrogatório de mais de oito horas sobre como ela tratou do atentado terrorista de 2012 em Benghazi, na Líbia.

Hillary pode não ter a oratória do presidente Obama ou a habilidade política que o marido tinha, mas sua força e determinação na campanha inspiraram sensivelmente mulheres mais velhas, eleitores negros e muitos outros, que viram em sua perseverança um espelho das próprias lutas. A tenacidade de Hillary, a garra e a capacidade para enfrentar e superar adversidades, podem ser exatamente o que é preciso para derrotar Donald Trump.

Como mulher de político, primeira-dama, senadora e secretária de Estado, Hillary, de 68 anos, redefiniu o papel da mulher na política americana a cada vez que ela se reinventava. Confidentes de Hillary dizem que, tendo superado tantos obstáculos antes, incluindo alguns que ela mesma criou, ela tem apenas de se adaptar ao atual adversário que a ataca tão ferozmente – e travar de novo os combates sem luvas que definiram sua carreira.

No discurso da vitória que fez na noite de terça-feira, Hillary disse que a mãe foi a maior influência em sua vida. “Ela me ensinou a nunca recuar ante um agressor – o que se mostrou um ótimo conselho.”

Foi com essa mesma garra que Hillary se recompôs após sair chamuscada da derrota para Obama em 2008. Há 14 anos, Hillary tem sido apontada como a mulher que os americanos mais admiram, segundo pesquisa Gallup. Mas sua campanha e a controvérsia sobre o uso de um servidor particular no envio de e-mails enquanto secretária de Estado tiveram preço: seu favoritismo e seu nível de confiabilidade despencaram. Ela vem sendo caricaturada, mais uma vez, como uma carreirista política. Ao mesmo tempo em que sua longa carreira e fama não são pouca coisa, as quantias que recebeu como palestrante em bancos de Wall Street pesaram contra ela na campanha.

Mas, do mesmo modo que parecia enfeixar contradições, refletia também uma sociedade na qual as expectativas com as mulheres, e as expectativas das mulheres com elas mesmas, estavam mudando rapidamente. E sempre foi difícil separar as opiniões sobre Hillary daquelas sobre mulheres poderosas em geral.

Se as velhas antipatias com Hillary podem ser em parte atribuídas à dificuldade dos americanos em se adaptar às mudanças de papéis de homens e mulheres em casa, sua história de combates políticos deixou cicatrizes que, em parte, definem a candidata que é: atenta à realidade de Washington, mas desconfiada e cautelosa em não falhar.

“Quem me apoia são predominantemente mulheres e moças, mas não exclusivamente”, disse ela. “Homens trazem as filhas para se encontrar comigo e dizem que por causa delas também estão me apoiando.” E concluiu: “Acho que vai fazer uma grande diferença quando um pai ou mãe puderem olhar para a filha como hoje olham para o filho e dizer: ‘Você pode ser tudo que quiser neste país, incluindo presidente da república’.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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