A onda de populismo nacionalista se move pelo Ocidente

A onda de populismo nacionalista se move pelo Ocidente

Desenvolvimento de novas respostas políticas para problemas reais será essencial no esforço de preservar a democracia

Redação Internacional

11 de novembro de 2016 | 05h00

Timothy Garton Ash
ESPECIAL

O desafio agora está bem visível: deparamos com a globalização da antiglobalização, uma frente popular de populistas e uma internacional de nacionalistas. “Hoje os Estados Unidos, amanhã, a França”, afirmou no Twitter Jean Marie Le Pen. Será uma luta dura e longa para derrotá-los, interna e externamente, e temos agora de voltar os olhos para a Alemanha, não para os EUA, em busca do “líder do mundo livre”. Mas nós os derrotaremos.

Na Rússia de Vladimir Putin, o que vemos hoje é algo próximo do fascismo. A Turquia de Recep Tayyip Erdogan vem rapidamente passando de uma democracia iliberal para o fascismo, ao passo que a Hungria de Viktor Orbán já é uma democracia não liberal.

Nigel Farage, the leader of the United Kingdom Independence Party, holds the British flag as he attends a plenary session at the European Parliament on the outcome of the

Nigel Farage, líder do Partido Independência do Reino Unido, diz que Brexit foi vitória do povo comum

 

Na Polônia, na França, na Holanda, no Reino Unido e agora nos EUA, teremos de defender essa linha que separa a democracia liberal da iliberal. No Reino Unido, significa defender a independência do Judiciário, a soberania do Parlamento e a força imparcial da BBC. Nos EUA, presenciaremos o maior teste enfrentado por um dos mais fortes e antigos sistemas de freios e contrapesos da democracia liberal. Embora os republicanos passem a dominar o Congresso e o presidente Donald Trump tenha autoridade para fazer nomeações políticas para a Suprema Corte, isso não significa que ele poderá agir conforme sua vontade.

Características. O que observamos em todos esses populismos nacionalistas é uma ideologia segundo a qual o desejo expresso diretamente pelo “povo” está acima ao de outras fontes de autoridade. E o líder populista, seja homem ou mulher – caso de Marine Le Pen –, se apresenta como a única voz do povo. “Sou a sua voz”, afirmou Trump, uma frase populista simbólica.

Mas essa voz também é do jornal britânico Daily Mail, denunciando como “inimigos do povo” os três juízes que decidiram que o Parlamento deve votar sobre o Brexit. E também o premiê turco que respondeu às declarações da União Europeia de que a Turquia ultrapassou a linha vermelha na sua brutal repressão da liberdade da mídia, afirmando que “o povo é que traça as linhas vermelhas”.

Num exame mais profundo, o que ocorre de fato é que o “povo” na verdade é apenas uma parte da população. Trump exemplificou perfeitamente esse artifício populista numa observação que fez durante um comício. “A única coisa importante é a união do povo”, disse, “porque as outras pessoas não significam nada”. Nigel Farage anunciou que o Brexit foi uma vitória do povo comum, das pessoas decentes, reais – portanto, os 48% dos que votaram no referendo não são pessoas comuns, decentes ou reais.

A história nos ensina alguma coisa sobre esses fenômenos, que surgem quase ao mesmo tempo em muitos lugares, em diferentes formas regionais e nacionais, mas mesmo assim com características comuns? O populismo nacionalista hoje, o liberalismo globalizado (ou neoliberalismo) na década de 90, o fascismo e o comunismo nos anos 30 e 40, o imperialismo do século 19. Podemos extrair duas lições: que essas tendências geralmente demoram um tempo significativo se desenvolvendo e para revertê-las é necessário ter coragem, determinação, criar uma nova linguagem política e novas respostas para problemas reais.

Um ótimo exemplo foi o desenvolvimento de uma combinação de economia de mercado e o Estado do bem-estar social na Europa depois de 1945. Esse modelo, que finalmente afastou as ondas do comunismo e do fascismo, necessitou do gênio intelectual de um John Maynard Keynes, o conhecimento político de pessoas como William Beveridge e as habilidade políticas de pessoas como Clement Attlee. Digo “pessoas” porque outros nomes podem ser incluídos no caso das versões adotadas em outros países europeus ocidentais. Mas desenvolver um novo modelo leva tempo.

Devemos, então, nos preparar para uma longa batalha, que talvez dure uma geração. Esse ainda não é um mundo pós-liberal, mas poderá se tornar. As forças que impulsionam o populismo são vigorosas, os partidos tradicionais na maior parte são fracos e essas ondas não recuam da noite para o dia. Temos, por exemplo, de defender internamente o pluralismo. E entender as causas sociais, culturais e econômicas do voto dos populistas.

Não só a esquerda, mas os liberais, os conservadores moderados e líderes de opinião, têm de buscar uma nova linguagem para atrair, emocional e substantivamente, esse amplo segmento do eleitorado populista que não é irreversivelmente xenófobo, racista e misógino. E não chamá-los de deploráveis, como fez Hillary Clinton na campanha, já é um bom início de conversa.

Esforços. Só retórica não adiantará. Quais são as políticas certas? São os acordos de livre-comércio e a imigração que estão corroendo os empregos, ou a tecnologia? Nesse último caso, o que fazer a respeito? No plano externo, o primeiro desafio é evitar a corrosão da ordem internacional liberal – os acordos duramente conquistados sobre a mudança climática, por exemplo, e os tratados de livre-comércio.

Filosoficamente, o presidente da China, Xi Jinping, poderá receber um “Trumpworld” de Estados soberanos nacionalistas, fortes e resolutos, mas na prática os líderes terão de reconhecer que um retorno ao nacionalismo econômico dos anos 30 – barreiras tarifárias de 45% sobre importações chinesas foram prometidas por Trump – seria um desastre para todos. A única coisa boa no caso de uma Internacional de nacionalistas é que, afinal, trata-se de uma contradição.

Temos, também, de esperar que americanos experientes e sérios sejam escolhidos para formular a política econômica e externa do novo governo, por mais desagradável que Trump seja. Mesmo assim, essa provavelmente será uma presidência bombástica, errática e imprevisível.

Uma grande responsabilidade caberá a outras grandes democracias do mundo, as muitas democracias nacionais na Europa, mas também Canadá, Austrália, Japão e Índia. Se a Europa entender que é crucial para os Estados bálticos se protegerem contra uma possível agressão da Rússia, temos de agir por meio da Otan e da UE para garantir isso. Não podemos confiar no fato de Putin elogiar Trump. Se os europeus entenderem ser importante manter uma democracia independente na Ucrânia, têm de se ocupar disso.

Como o Reino Unido se colocou à margem com o resultado da sua versão de populismo nacionalista, a responsabilidade cabe especialmente aos eleitores alemães e franceses. Se tivermos um presidente francês como Alain Juppé e se Angela Merkel for reeleita no fim do ano, a Europa ainda conseguirá assumir a responsabilidade.

Merkel deu a resposta mais digna que vi à eleição de Trump. “Alemanha e EUA estão unidos pelos valores da democracia, liberdade e respeito da lei e da dignidade humana, independente de origem, cor da pele, religião, gênero, orientação sexual ou opinião política. Ofereço ao próximo presidente dos EUA, Donald Trump, estreita colaboração com base nesses valores”. Magnífica.

O termo “líder do mundo livre” normalmente é aplicado ao presidente dos EUA, muitas vezes com ironia. Diria que hoje a líder do mundo livre é Angela Merkel. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE OXFORD

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