Análise: A sensação de ser um ‘desabrigado’ na América

Redação Internacional

10 de novembro de 2016 | 05h00

Thomas L. Friedman
THE NEW YORK TIMES

Presumo que Donald Trump não desejará ser considerado o pior presidente da história dos EUA, sem falar no único que governou um país mergulhado na mais profunda divisão desde a Guerra Civil. Isso abalará o mundo todo. Portanto, só posso esperar que, como presidente, ele procure se cercar das melhores pessoas que conseguir, o que certamente não inclui figuras do tipo de Rudy Giuliani ou Newt Gingrich, muito menos os extremistas da direita alternativa que impulsionaram sua campanha.

Mas também é extremamente preocupante a obsessão de Trump em “vencer”. Para ele a vida é sempre um jogo de soma zero: eu ganho, você perde. Mas quando você está governando os Estados Unidos, nem tudo é assim.

 

Donald Trump surpreendeu o mundo ao conseguir derrotar Hillary Clinton e se tornar presidente dos Estados Unidos (Foto: Carlo Allegri/ Reuters)

Donald Trump surpreendeu o mundo ao conseguir derrotar Hillary Clinton e se tornar presidente dos Estados Unidos (Foto: Carlo Allegri/ Reuters)

 

“O mundo só será estável quando os países mantiverem uma relação em que todos ganham, uma interdependência saudável”, observou Dov Seidman, CEO da LRN, que assessora empresas na área de liderança, e autor do livro How.

Por exemplo, os Estados Unidos implementaram o Plano Marshall, após a 2.ª Guerra, fornecendo milhões de dólares para a Europa, tornando-a uma parceira comercial e criando uma relação que produziu enormes benefícios recíprocos. Trump entende isso? Aqueles que votaram nele sabem a que ponto seu emprego depende de uma América envolvida profundamente numa interdependência saudável em todo o mundo?

Como explicar a vitória de Trump? Em breve saberemos, mas meu instinto diz que ela teve muito menos a ver com comércio ou defasagem de renda e muito mais com a cultura e a sensação de “desabrigo” dos americanos.

Não há nada que possa tornar as pessoas mais iradas ou desorientadas do que sentir que perderam sua casa. Para alguns, isso ocorre porque os EUA estão se tornando um país de muitas minorias, o que tem ameaçado o sentimento de comunidade dos muitos brancos de classe média, particularmente os que vivem mais longe das áreas urbanas cosmopolitas.

Para outros, trata-se do turbilhão vertiginoso da mudança tecnológica no qual estamos envolvidos. Essa mudança destruiu o emprego, transformou o mercado de trabalho, segundo eles, de uma maneira desconcertante, pressionando-os a uma eterna aprendizagem. Quando as duas coisas mais importantes da sua vida – o trabalho e a comunidade que as ampara – passam por mudanças tão drásticas, não surpreende que as pessoas se sintam confusas e recorram a soluções simplistas promovidas por um aspirante a ditador.

O que sei com certeza é que o Partido Republicano e Donald Trump terão o controle de todas as alavancas do governo, dos tribunais ao Congresso e a Casa Branca. É uma responsabilidade gigantesca e inteiramente deles. Eles entendem isso?

Pessoalmente, não desejo que tudo dê errado para eles. Há muita coisa em jogo para meu país e meus filhos. Ao contrário do Partido Republicano nos últimos oito anos, não tentarei agir de modo a que meu presidente fracasse. Porque, se ele fracassar, também fracassaremos. Portanto, tenho esperança no surgimento de um homem melhor do que o que vimos nesta campanha. Mas, no momento, sinto-me angustiado, temendo por meu país e sua unidade. E, pela primeira vez, sinto-me desabrigado na América. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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