Análise: A Turma da Web em pé de guerra contra a Turma do Muro

Redação Internacional

28 de julho de 2016 | 05h00

Thomas Friedman / The New York Times

Thomas Friedman / The New York Times

Sim, está havendo uma eleição bem agora. Sim, há dois partidos na disputa. Não, não são os dois em que você está pensando. Não se trata de democratas versus republicanos. Esta eleição na verdade é entre a “Turma do Muro” e a “Turma da Web”.
O objetivo básico da Turma do Muro é encontrar um presidente que desligue o ventilador – os ventos violentos da mudança que hoje afetam cada família – nos locais de trabalho, onde as máquinas ameaçam empregos de operários e executivos; nas vizinhanças, em que tantos imigrantes de diferentes religiões, raças e culturas estão se movimentando; e globalmente, com pessoas raivosas e superpoderosas matando inocentes com perturbadora regularidade. A Turma do Muro quer uma parede que barre isso tudo.

A vontade dessa turma de impedir mudanças pode ser irrealista, mas, justiça seja feita, não diz respeito apenas a raça e classe. É também um anseio por comunidade – “casa”, no sentido mais profundo -, um sentimento de que as coisas que nos orientam no mundo e dão significado à vida estão sendo destruídas. Assim, eles procuram por alguém que detenha a erosão.
A Turma do Muro tem dois candidatos de seu lado: Donald Trump, que se vangloria de ser “O Homem” que pode deter os ventos com um muro; e Bernie Sanders, que promete parar a ventania acabando com os grandes acordos de comércio mundial e derrubando o que “O Homem” representa – milionários, bilionários e grandes bancos. Não vejo como o país suportaria os planos desses dois, mas eles tem uma linguagem comum que fala às entranhas.
A Turma da Web compreende instintivamente que tanto democratas quanto republicanos edificaram suas plataformas em grande parte em resposta à Revolução Industrial, ao New Deal e à Guerra Fria, mas sabe que hoje um partido do século 21 precisa responder às acelerações da tecnologia, à globalização e às mudanças climáticas – forças que vêm transformando os locais de trabalho, a geopolítica e o próprio planeta.
Como tal, o instinto da Turma da Web é abraçar mudanças no ritmo da mudança e dar a mais gente poder para competir e colaborar num mundo sem muros. Em particular, a Turma da Web entende que, em tempos de rápidas transformações, sistemas abertos são sempre mais flexíveis, resistentes e impulsionadores; eles proporcionam mais oportunidades para sentir as mudanças e responder primeiro a elas. Assim, a Turma da Web quer mais expansão do comércio, na linha da Parceria Transpacífica, e mais imigração administrada, que atraia mentes dinâmicas e inteligentes, além de dar à população meios de aprendizagem contínua.
A Turma da Web também entende que, embora não queiramos outro surto de inquietação em Wall Street, também não queremos sufocar a tomada de riscos, o motor do crescimento e empreendedorismo.
Como o Partido Republicano ficou fora da Casa Branca nos últimos oito anos, sua base e liderança são as que menos entendem o mundo no qual estamos vivendo. É por isso que o Partido Republicano se dividiu e alguns republicanos da Turma da Web, particularmente do mundo empresarial, estão preferindo ficar fora desta eleição ou votar em Hillary Clinton.
Por ter sido secretária de Estado, Hillary tem em vista o mundo todo. Ela sabe que os Estados Unidos precisam construir seu futuro numa plataforma da Turma da Web, que Bill Clinton articulou pela primeira vez e até hoje é seu melhor articulador. Mas Hillary nem sempre se mostra corajosa em suas convicções, ou com as do marido.
Assim, em vez de abrigar a Turma do Muro em seu partido – e dizer a Sanders que “socialismo é a resposta errada para a era industrial e, seguramente também não é a resposta para a era da informação” -, ela está se aproximando da Turma do Muro. Hillary vem se opondo a coisas que ajudou a negociar, como o acordo comercial do Pacífico, e acenando com mais concessões do governo, mas evitando dizer ao povo a mais dura das verdades: a de que pertencer à classe média, apenas trabalhando pesado e jogando segundo as regras, não resolve mais. Para ter um emprego duradouro é preciso se reciclar permanentemente e melhorar incessantemente.
Para seu crédito, no entanto, Hillary escolheu um grande companheiro de chapa, o senador Tim Kaine, um cara da Turma da Web que tem alma.
Minha esperança é que, para o bem do país, os republicanos da Turma da Web, com o tempo, se juntem ao Partido Democrata e o levem a ser um partido compassivo de centro-esquerda do século 21. Seria um partido sensível às necessidades da classe trabalhadora, que reconhecesse a força de comunidades saudáveis, mas também comprometido com o capitalismo, o livre mercado e o comércio aberto como motores vitais do crescimento rumo a uma sociedade moderna e com dar a todos os americanos os instrumentos para realizarem seu potencial.
Não vejo chances de o Partido Republicano voltar a ser tão cedo um partido de centro-direita. O Tea Party, Trump e a Fox News deixaram suas bases raivosas demais e desconectadas da realidade.
Assim, tudo depende da coalizão que Hillary construir. Para os Estados Unidos prosperarem no século 21, precisamos desesperadamente de uma coalizão que governo com inteligência nesta época de mudanças rápidas. Hillary Clinton tem a chance de romper não apenas a barreira que impede o crescimento das mulheres, mas também os fortes muros que dividiram nossos dois partidos. Se conseguir isso, ter se tornado a primeira mulher presidente passará a ser a segunda mais importante de suas realizações.  / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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