Análise: As desculpas vazias de Trump

Redação Internacional

24 Agosto 2016 | 05h00

Charles M. Blow*
The New York Times NYT

Donald Trump é um candidato tão inflexível na sua pervertida hipocrisia que não “gosta de ter de pedir perdão”. Ele diz que nunca o fez, nem a Deus. Mas, na verdade, ele manifestou algum “arrependimento” na semana passada, quando afirmou que “às vezes, no calor do debate, e ao abordar uma grande variedade de assuntos, você não escolhe as palavras certas e diz coisas erradas”. “Foi o que fiz. E acredite ou não, eu lamento. E lamento se, por isso, feri alguém pessoalmente.” Mas o que Trump lamenta exatamente?

Lamenta ter atacado a família de um veterano morto das Forças Armadas? Ou ter feito piada de um dos meus colegas com deficiência física? Ou de ter associado o pai de Ted Cruz ao assassino de John F. Kennedy? O que Trump lamenta exatamente? São tantas coisas.

Candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump

Candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump (Joe Raedle/Getty Images/AFP)

Não acredito absolutamente que Trump lamente o impacto pessoal do que tem afirmado sobre qualquer outra pessoa além dele. Ele lamenta o fato de que tudo o que tem afirmado não funcionou bem para sua campanha. Eis a diferença entre se arrepender como um ato público de contrição e como expressão da frustração com a redução das chances de vitória.

Mas levará mais do que os dias remanescentes de campanha para ele desmontar o que levou 70 anos da sua vida para construir. Ele é o que é. Este frágil narcisista, uma espécie de poço sem fundo de necessidade emocional e de afirmação, é facilmente atingido ao menor confronto.

É um homem que afirma não ter amigos. Sim, ele se sai bem diante de uma multidão, uma tela e com uma conta no Twitter. Consegue canalizar a raiva, o ódio e a intolerância e dar a tudo isso uma voz, um rosto e estatura. Ele tem o talento de um trambiqueiro. O problema é que, no momento, esses talentos estão se mostrando insuficientes na medida em que se depara com resultados horríveis nas pesquisas. Além disso, sua equipe está sendo reformulada em meio a notícias de corrupção.


Trump se acha um grande homem, mas se as tendências continuarem e ele sofrer uma assombrosa derrota nesta eleição, seu ego ficará ferido para sempre e ele será lembrado na história não como um grande homem, mas um grande desastre, e um alerta para o que pode ocorrer com um partido que escolhe um impostor como candidato. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É JORNALISTA