Análise: Campanha é fruto de uma avalanche de desconfiança

Nas últimas décadas, o declínio da confiança social está relacionado a uma epidemia de solidão

Redação Internacional

14 de setembro de 2016 | 05h00

David Brooks
The New York Times

Começo a achar que toda essa sórdida campanha eleitoral americana esteja sendo impulsionada por uma ácida rajada de desconfiança. Os dois principais candidatos são notoriamente desconfiados. Estabeleceram o padrão moderno de esconder informações – ele, ao não divulgar seus dados fiscais e de saúde; ela, ao não dar regularmente entrevistas ou não anunciar rapidamente o diagnóstico de pneumonia. Os dois têm problema em divulgar espontaneamente fatos que denotem vulnerabilidade.

No fundo, ambos sofrem de uma visão desconfiada da vida, visão de soma zero, belicosa – a ideia de que ser vulnerável não ajuda a triunfar nesse mundo, dada a natureza egoísta dos outros. Mas esses candidatos não surgiram no vácuo. Políticos desconfiados são produto de um país cada vez mais desconfiado. Uma geração atrás, metade dos americanos achava que podia confiar nas pessoas em volta. Agora, menos de um terço acha os outros confiáveis.

Candidata democrata à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton

Candidata democrata à presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton (Foto: AP Photo/Matt Rourke)

Nas últimas décadas, o declínio da confiança social está relacionado a uma epidemia de solidão. Em 1985, 10% dos americanos diziam não ter amigos próximos com os quais pudessem trocar ideias sobre assuntos importantes. Em 2004, esse porcentual subiu para 25%. Quando você se recusa a se abrir com os outros, os outros não vão se abrir com você.

O crescimento da desconfiança corrói a intimidade. Quando se entra nas redes sociais, encontra-se pessoas ansiosas por amizade. A atmosfera de desconfiança, porém, solapa a verdadeira intimidade, que envolve confiabilidade, vulnerabilidade, risco emocional e conversas cara a cara espontâneas e imprevisíveis. Ocorre, como disse uma vez Stephen Marche, uma “falsa casualidade”. É possível se levar por semanas uma descontraída conversa online sem que alguma confiança real apareça.

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Além disso, o medo é o grande inimigo da intimidade. A perda de intimidade deixa as sociedades mais isoladas. Isolamento leva a mais medo. Mais medo leva a líderes divulgadores de medo. E depressa entramos nesse círculo mortífero. As grandes religiões e as filosofias políticas mais sensatas sempre aconselharam o caminho inverso.

Advertem que a força verdadeira está na camaradagem, que fica impossível se nos empenharmos em erguer muros. Elas defendem que mesmo numa avalanche de calúnias haverá alguém para antepor a vulnerabilidade à desconfiança, a inocência ao ceticismo, a fé ao cinismo e a afeição à hostilidade.

Os candidatos à Casa Branca não estão fazendo isso. Esse, porém, é o caminho realista para a força. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É COLUNISTA

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